Comissão de Ética do Corinthians converte investigação contra Stabile em processo de destituição

Despacho aponta indícios de infrações estatutárias em contratos de segurança; presidente terá dez dias para apresentar nova defesa

A Comissão de Ética e Disciplina do Conselho Deliberativo do Corinthians converteu o procedimento administrativo que investiga Osmar Stabile para o rito específico de destituição, previsto no artigo 107 do Estatuto Social do clube. A decisão foi formalizada nesta quarta-feira (28), por meio de despacho assinado por Leonardo Pantaleão, presidente da comissão, após a análise de documentos e diligências relacionadas à contratação de empresas de segurança privada durante a atual gestão.
O procedimento, divulgado inicialmente pelo Meu Timão, apura possíveis irregularidades envolvendo o uso de recursos do Corinthians para custear serviços de segurança, o cumprimento das normas internas de contratação e a atuação da empresa Bear Security Ltda. Segundo a comissão, os elementos reunidos apresentam indícios que, em tese, podem ser enquadrados em três hipóteses de destituição previstas no artigo 106 do Estatuto.
A mudança de rito não representa o afastamento de Osmar Stabile nem uma conclusão definitiva sobre sua responsabilidade. O dirigente permanecerá com direito ao contraditório e à ampla defesa, podendo contestar os enquadramentos apresentados e indicar novas provas antes do prosseguimento do procedimento.
Com a decisão, o presidente terá prazo de dez dias, contado a partir de sua intimação conforme as regras aplicáveis, para apresentar manifestação específica.
Posteriormente, caberá à Comissão de Ética avaliar os elementos reunidos e elaborar um parecer, que poderá ser submetido às instâncias estatutárias responsáveis pela análise de uma eventual destituição.
O que muda com o processo de destituição de Osmar Stabile?
A conversão determinada pela Comissão de Ética representa uma mudança relevante na natureza do procedimento interno contra o presidente do Corinthians.
Até então, a investigação administrativa estava voltada à apuração de possíveis infrações disciplinares relacionadas às contratações de serviços de segurança. Com o despacho desta quarta-feira, o caso passa a seguir o rito previsto no artigo 107 do Estatuto Social, destinado à análise de situações que podem resultar na destituição do presidente da Diretoria ou de seus vice-presidentes.
A decisão foi fundamentada na existência de indícios de condutas que poderiam se enquadrar nas hipóteses estabelecidas pelo artigo 106, incluindo prejuízo considerável ao patrimônio ou à imagem do Corinthians, infração a normas estatutárias e prática de gestão irregular ou temerária.
O novo enquadramento, entretanto, não significa que essas irregularidades já tenham sido comprovadas. A própria comissão ressalta que a medida possui caráter procedimental e assegura ao dirigente a oportunidade de apresentar sua defesa diante dos fundamentos específicos utilizados para a conversão.
A análise também não se confunde com uma decisão judicial. Trata-se de um procedimento conduzido pelos órgãos internos do Corinthians, sujeito às regras de seu Estatuto Social e às deliberações das instâncias responsáveis pelo julgamento.
Três possíveis infrações ao Estatuto fundamentam a decisão
O despacho assinado por Leonardo Pantaleão identifica três frentes que justificaram o encaminhamento da investigação ao rito de destituição.
A primeira envolve o possível uso de serviços de segurança privada custeados pelo Corinthians em benefício particular de Osmar Stabile e de seus familiares.
Segundo os elementos mencionados pela comissão, há suspeitas de que recursos da instituição tenham sido empregados para atender interesses que não estariam diretamente relacionados às necessidades do clube.
Essa hipótese foi associada à alínea “b” do artigo 106, que prevê a possibilidade de destituição de administradores que, por ação ou omissão, tenham provocado prejuízo considerável ao patrimônio ou à imagem do Corinthians.
A segunda frente examina o cumprimento das normas internas relacionadas à contratação de prestadores de serviços.
De acordo com o despacho, não teriam sido apresentados três orçamentos prévios para a contratação dos serviços de segurança, tampouco documentação que comprovasse autorização ou parecer do Conselho de Orientação (Cori) para dispensar esse procedimento.
A comissão entendeu que a situação poderá caracterizar, em tese, infração expressa às normas estatutárias de contratação, hipótese prevista na alínea “d” do artigo 106.
O terceiro ponto diz respeito à contratação da Bear Security Ltda., empresa responsável por serviços de segurança privada relacionados ao presidente.
Conforme as diligências mencionadas no procedimento, não teria sido apresentada comprovação de autorização de funcionamento expedida pela Polícia Federal para a prestação dos serviços investigados.
A ausência dessa documentação foi considerada um possível indicativo de gestão irregular ou temerária, enquadramento previsto na alínea “e” do artigo 106.
As três hipóteses permanecem sob apuração. A identificação de indícios suficientes para alterar o rito não substitui a necessidade de analisar a documentação, os argumentos da defesa e as provas produzidas antes de qualquer julgamento sobre a responsabilidade de Stabile.
Caso Bear Security já motivou denúncia do Ministério Público
A contratação da Bear Security está entre os principais episódios que provocaram questionamentos sobre a administração de Osmar Stabile nos últimos meses.
Em setembro, conforme noticiou o InfoTimão, o Ministério Público de São Paulo denunciou o presidente por suposta apropriação indébita relacionada ao pagamento de serviços de segurança particular.
Segundo a denúncia apresentada pelo promotor Cássio Roberto Conserino, o Corinthians teria desembolsado R$ 721.194,66 à empresa entre julho de 2025 e agosto de 2026, enquanto parte dos serviços teria sido utilizada em benefício pessoal do presidente e, possivelmente, de familiares.
A Promotoria também questionou a regularidade da empresa para atuar no setor de segurança privada, diante da suposta ausência de autorização da Polícia Federal.
Além da acusação criminal, o Ministério Público solicitou medidas cautelares à Justiça, incluindo o afastamento de Stabile das funções administrativas, restrições de acesso ao Corinthians e de contato com testemunhas, além do bloqueio de bens em valor correspondente ao prejuízo alegado.
O Corinthians contesta a interpretação de que a contratação tenha atendido a interesses particulares. Em manifestações anteriores, o clube sustentou que os serviços foram necessários diante de riscos à integridade do presidente e de seus familiares durante um período de instabilidade política, e que os valores eram compatíveis com os praticados no mercado.
A investigação conduzida pelo Ministério Público e o procedimento disciplinar da Comissão de Ética possuem objetos e consequências jurídicas distintos. O avanço de uma dessas frentes não representa automaticamente a comprovação de irregularidades na outra.
Mega Assessoria também integra histórico das investigações sobre segurança
Os questionamentos relacionados à Bear Security se somam a outra investigação envolvendo a contratação de serviços de segurança durante a gestão de Osmar Stabile.
Em maio de 2026, o Ministério Público passou a apurar os pagamentos realizados pelo Corinthians à Mega Assessoria Operacional Ltda., empresa utilizada para prestar serviços de segurança ao clube entre setembro e outubro de 2025.
Conforme reportagem anterior do InfoTimão, a empresa recebeu aproximadamente R$ 676,6 mil por meio de três notas fiscais, em um contexto de questionamentos sobre a ausência de autorização da Polícia Federal e de contrato formal para a prestação dos serviços.
A investigação avançou após depoimentos de pessoas envolvidas na contratação, incluindo relatos que associaram a decisão à administração do presidente.
Na ocasião, Stabile explicou que a reorganização da segurança havia sido determinada em razão de episódios de instabilidade no Parque São Jorge, especialmente após a crise política que culminou no afastamento de Augusto Melo.
Em entrevista repercutida pelo InfoTimão, o dirigente reconheceu falhas nos procedimentos adotados para a contratação emergencial, mas negou ter determinado a abertura da empresa utilizada para viabilizar os serviços.
Embora Mega Assessoria e Bear Security integrem o histórico de questionamentos sobre a segurança durante a atual gestão, as empresas possuem contratos, valores e circunstâncias próprias, que devem ser analisados separadamente.
Comissão rejeita pedido de prazo adicional apresentado pela defesa
Antes de determinar a conversão para o rito de destituição, a Comissão de Ética também analisou um pedido apresentado pelos advogados de Osmar Stabile.
A defesa solicitou prazo adicional para examinar propostas comerciais e relatórios de integridade incorporados ao procedimento, argumentando que precisava de mais tempo para avaliar a documentação.
O requerimento foi indeferido por Leonardo Pantaleão.
Segundo o despacho, os documentos já haviam sido disponibilizados aos advogados antes da apresentação da manifestação inicial, em período considerado suficiente para sua análise. A comissão também entendeu que as propostas relacionadas aos serviços de segurança não apresentavam complexidade técnica extraordinária que justificasse a ampliação do prazo solicitado.
Outro fundamento apresentado foi a ausência de previsão regulamentar para a prorrogação pretendida nas circunstâncias examinadas.
O indeferimento, entretanto, não encerra as possibilidades de manifestação da defesa. Com a conversão do procedimento, Stabile terá uma nova oportunidade formal para contestar especificamente os enquadramentos apontados pela comissão e indicar as provas que pretende produzir.
Quais são os próximos passos para uma possível destituição de Stabile?
A decisão desta quarta-feira abre uma nova etapa do procedimento interno, mas a eventual saída de Osmar Stabile da presidência do Corinthians ainda depende do cumprimento das fases previstas no Estatuto Social.
O primeiro passo será a intimação formal do dirigente para apresentação de defesa específica. O artigo 107 prevê prazo de dez dias a partir do recebimento do expediente, sem qualificá-los expressamente como dias úteis. A data final dependerá da intimação e das regras aplicáveis à contagem.
Nesse período, os advogados poderão contestar as hipóteses de infração estatutária apontadas pela comissão e indicar os elementos probatórios que considerarem necessários para o esclarecimento dos fatos.
Após essa etapa, o procedimento retornará à Comissão de Ética e Disciplina, responsável por examinar as manifestações e os elementos produzidos antes de elaborar um parecer.
Pelo rito estatutário, a comissão deverá encaminhar sua manifestação à presidência do Conselho Deliberativo, que poderá convocar uma sessão específica para deliberar sobre o pedido de destituição.
Nessa etapa, o Estatuto prevê a possibilidade de sustentação oral da Comissão de Ética e da defesa, antes da votação dos conselheiros em escrutínio secreto.
Caso o Conselho Deliberativo aprove a destituição, o presidente será afastado cautelarmente e deverá ser convocada uma Assembleia Geral de associados em até cinco dias, responsável pela decisão final.
A destituição somente terá eficácia definitiva após a proclamação do resultado da Assembleia Geral, conforme estabelece o parágrafo único do artigo 107.
Isso significa que a conversão do rito determinada nesta quarta-feira não representa o afastamento imediato de Osmar Stabile, tampouco garante que o procedimento resultará na perda de seu mandato.
O processo ainda dependerá da análise da defesa, do parecer da Comissão de Ética e das deliberações exigidas pelo Estatuto Social.
Nova etapa amplia questionamentos sobre a gestão do Corinthians
A decisão da Comissão de Ética ocorre em um momento de questionamentos à administração do Corinthians, que enfrenta dificuldades financeiras, disputas políticas e investigações envolvendo decisões tomadas durante a atual gestão.
Os contratos relacionados à segurança passaram a ocupar posição central nesse cenário por envolverem tanto suspeitas de utilização irregular de recursos quanto possíveis descumprimentos dos procedimentos internos de contratação.
A mudança de rito também acontece em meio a outras representações apresentadas contra a administração de Stabile. O InfoTimão acompanha desde abril a tramitação de pedidos de impeachment protocolados por conselheiros e associados, envolvendo diferentes questionamentos sobre a gestão do clube.
Esses procedimentos possuem fundamentos e etapas próprias, não devendo ser confundidos automaticamente com a investigação sobre as empresas de segurança convertida nesta quarta-feira.
Com a nova decisão, as suspeitas passam a ser examinadas dentro de um rito estatutário que admite a possibilidade de perda do mandato presidencial, caso sejam demonstradas infrações e cumpridas as exigências institucionais aplicáveis.
A mudança representa um avanço na tramitação interna, mas não antecipa o resultado do julgamento nem substitui a análise das provas e dos argumentos apresentados pela defesa.
O InfoTimão seguirá acompanhando os desdobramentos da Comissão de Ética, as investigações relacionadas às empresas de segurança e as próximas decisões dos órgãos internos do Corinthians.
E você, torcedor: como avalia a mudança do procedimento contra Osmar Stabile para o rito de destituição? Deixe sua opinião nos comentários.
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InfoTimão, informação de corinthiano para corinthiano.






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