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Garrincha no Corinthians: a história do craque que ajudou a eternizar o apelido Timão

Foto do escritor: Redação InfoTimão
Redação InfoTimão
há 2 horas
17 min de leitura

Nos 93 anos do nascimento de Mané Garrincha, o InfoTimão resgata sua passagem pelo Corinthians em 1966, marcada por dois gols, um título, a emoção de Elza Soares e a origem de um apelido histórico.


Garrincha veste a camisa listrada do Corinthians durante sua passagem pelo clube em 1966.
Garrincha chegou ao Corinthians em janeiro de 1966, em uma contratação que mobilizou a Fiel e ajudou a eternizar o apelido Timão. Foto: Acervo Corinthians

A passagem de Mané Garrincha pelo Corinthians durou apenas 13 partidas. Foram dois gols, cinco vitórias, um título compartilhado e menos de um ano entre a chegada cercada de expectativas e a despedida discreta. Embora não tenha conseguido repetir no Parque São Jorge o futebol que o transformou em um dos maiores jogadores de todos os tempos, o Anjo das Pernas Tortas deixou uma marca que ultrapassou seu desempenho dentro de campo: sua contratação ajudou a eternizar o apelido pelo qual o clube é conhecido até hoje, Timão.


Neste 28 de outubro de 2026, quando se completam 93 anos do nascimento de Manoel Francisco dos Santos, o InfoTimão retorna a 1966 para recuperar um capítulo singular da história alvinegra. Naquele ano, o Corinthians apostou em um bicampeão mundial para interromper a espera por um novo título paulista. A contratação mobilizou multidões, emocionou Elza Soares, inspirou um samba e colocou o clube novamente no centro das atenções do futebol brasileiro.


Era o encontro entre um craque que buscava recuperar o próprio futebol e uma torcida que desejava voltar a comemorar grandes conquistas. O resultado esportivo ficou distante do imaginado, mas a experiência deixou episódios marcantes, entre eles um golaço contra o São Paulo, a participação na conquista do Torneio Rio-São Paulo e uma relação de carinho que Garrincha jamais esqueceria.


Seis décadas depois, a história daquele breve encontro entre Mané e o Corinthians continua revelando como o futebol pode ultrapassar as quatro linhas e alcançar a cultura, a memória e a identidade de milhões de torcedores.


A contratação de Garrincha e a esperança de encerrar o jejum


Em janeiro de 1966, o Corinthians atravessava um período de cobranças crescentes. O último título do Campeonato Paulista havia sido conquistado em 1954, com a confirmação matemática ocorrendo em fevereiro de 1955. Desde então, a torcida acumulava frustrações e aguardava a formação de uma equipe capaz de recolocar o clube entre os protagonistas do futebol paulista.


Foi nesse cenário que o presidente Wadih Helu decidiu investir na contratação de Garrincha, então com 32 anos. Bicampeão mundial pela Seleção Brasileira em 1958 e 1962, o ponta-direita havia construído praticamente toda a carreira no Botafogo, clube pelo qual se consagrou como um dos jogadores mais admirados do planeta.


As negociações começaram nos últimos dias de dezembro de 1965 e se estenderam por aproximadamente duas semanas. O acordo com o Botafogo foi fechado em 13 de janeiro de 1966, envolvendo o pagamento de 220 milhões de cruzeiros, valor expressivo para a época.


A contratação carregava, entretanto, um risco evidente. Garrincha já não apresentava a mesma condição física dos tempos de glória. Sofria com problemas crônicos nos joelhos, havia disputado poucas partidas nas temporadas anteriores e enfrentava dificuldades para manter uma rotina regular de treinamentos.


Ainda assim, o prestígio conquistado com a camisa da Seleção alimentava a esperança de que o Corinthians pudesse recuperar parte daquele talento. Para o jogador, deixar o Botafogo representava a possibilidade de encontrar um novo ambiente, recuperar a confiança e prolongar sua trajetória no futebol.


A aposta também fazia parte de uma reformulação mais ampla. O clube contratou o zagueiro Ditão e o meio-campista Nair, ambos da Portuguesa, além do atacante Tales, da Ferroviária. O elenco já reunia nomes como Dino Sani, Flávio Minuano, Gilson Porto e o jovem Roberto Rivellino.


A expectativa em torno daquele grupo era enorme. O Corinthians prometia reunir um dos elencos mais fortes do país, mas ainda precisava transformar os investimentos em resultados.


Antes mesmo de o time entrar em campo, porém, a chegada de sua principal estrela já havia provocado uma mobilização histórica.


A chegada de Garrincha ao Corinthians e a emoção de Elza Soares


Na noite de 13 de janeiro de 1966, o Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, tornou-se o cenário de uma festa alvinegra. Torcedores e jornalistas aguardavam havia horas o desembarque de Garrincha, que chegou do Rio de Janeiro acompanhado da cantora Elza Soares, sua companheira.


Como não havia informações precisas sobre o horário do voo, cada aeronave procedente da capital fluminense despertava uma nova expectativa. A espera terminou por volta das 20h, quando o bimotor que transportava o casal finalmente aterrissou.


A recepção foi calorosa. Garrincha, acostumado às demonstrações de carinho recebidas no Botafogo e na Seleção Brasileira, encontrou uma multidão disposta a abraçá-lo antes mesmo de sua primeira partida pelo Corinthians.


Um episódio curioso marcou aquele desembarque. Segundo relatos históricos, a camisa utilizada pelo jogador nas primeiras fotografias foi emprestada por Rivellino, que morava nas proximidades do aeroporto. A peça tinha o número 10, diferente do tradicional 7 que acompanhara Garrincha em suas maiores conquistas.


Mas a dimensão daquele encontro ficou especialmente evidente na reação de Elza Soares.


Já reconhecida como uma das grandes vozes da música brasileira, a cantora estava acostumada ao carinho do público. Mesmo assim, emocionou-se ao perceber a intensidade da recepção dedicada ao companheiro. Em declaração preservada nos registros da época e recuperada em um especial histórico da ESPN, Elza não conseguiu conter as lágrimas.


"Desculpem se estou chorando. Não posso evitar. Sabia que o povo de São Paulo me queria bem, pelos meus programas na TV. Mas estou vendo que o Garrincha é ainda mais querido. E isso me comove. Me toca o coração."

Elza Soares beija Garrincha no rosto enquanto o jogador veste a camisa listrada do Corinthians.
Elza Soares demonstra seu carinho por Garrincha durante a passagem do bicampeão mundial pelo Corinthians, em 1966. Foto: Acervo Corinthians

A emoção não terminou no aeroporto. Apesar do cansaço da viagem, Elza fez questão de acompanhar Garrincha até o Parque São Jorge, onde outra multidão aguardava a apresentação do reforço. A sede alvinegra recebeu o casal em meio a manifestações de entusiasmo, com torcedores, dirigentes e jornalistas reunidos para acompanhar aquele momento.


Garrincha visitou as instalações do clube, conheceu a sala de troféus e voltou a posar com a camisa corinthiana. Em uma das declarações mais conhecidas de sua chegada, respondeu ao presidente Wadih Helu com uma mistura de satisfação e irreverência:


"Sempre tive o desejo de vestir essa camisa. Eu fico bem dentro dela, não?"

Garrincha sorri com a camisa branca do Corinthians ao lado de um troféu na sede social do clube.
Garrincha posa na sala de troféus do Parque São Jorge durante sua passagem pelo Corinthians, em 1966. Foto: Acervo Corinthians

A relação entre o casal e o Corinthians ultrapassaria a celebração daquele primeiro dia. No documentário produzido pela ESPN sobre os 50 anos da passagem de Garrincha pelo clube, Elza recordou a identificação que já possuía com o time e destacou como o acolhimento da Fiel fortaleceu o sentimento de ambos.


A experiência tinha um significado particular para Garrincha. Depois de anos de desgaste físico e de uma saída difícil do Botafogo, o jogador encontrava em São Paulo uma demonstração de carinho que ajudava a renovar sua esperança de voltar a jogar em alto nível.


A recepção foi tão marcante que a chegada do craque acabou ganhando uma homenagem também fora dos estádios.


O samba que celebrou a chegada de Garrincha ao Corinthians


A presença de Garrincha no Corinthians não movimentou apenas o noticiário esportivo. A contratação também repercutiu na música brasileira, aproximando ainda mais a história do jogador do universo cultural do qual Elza Soares já era uma das grandes representantes.


Em 1966, o cantor Ary Lobo gravou O Balanço do Garrincha, samba composto por Palmeira e Celso dos Santos. A canção celebrava os dribles característicos do bicampeão mundial e a esperança da torcida corinthiana de voltar a comemorar um título.


A música fazia referência à chegada de Garrincha ao clube, ao entusiasmo das arquibancadas e à expectativa de que sua presença ajudasse a transformar o Corinthians em uma equipe campeã.


O samba representava, em linguagem popular, o mesmo sentimento registrado pelos jornais durante a apresentação do jogador. Aquele não era apenas mais um reforço contratado pelo clube. Tratava-se de um dos personagens mais conhecidos do futebol mundial, cuja presença provocava mobilização nas ruas, nos estádios e também na cultura brasileira.


A relação de Garrincha com Elza acrescentava uma dimensão especial àquele momento. De um lado, estava um jogador que havia encantado o planeta com seus dribles. Do outro, uma cantora que construía uma carreira marcada pela força de sua voz e por uma profunda ligação com a música popular.


Ambos encontraram no Corinthians uma recepção que ultrapassou suas expectativas. A canção dedicada ao jogador tornou-se mais um registro daquela atmosfera de entusiasmo que tomou conta de São Paulo no início de 1966.


Capa histórica da revista A Gazeta Esportiva Ilustrada com Garrincha vestindo a camisa branca do Corinthians.
Garrincha estampou a capa de A Gazeta Esportiva Ilustrada durante sua passagem pelo Corinthians, reflexo da repercussão nacional de sua contratação. Foto: Reprodução

A euforia, entretanto, contrastava com o desafio que aguardava o craque dentro de campo. Para corresponder às expectativas, Garrincha precisava primeiro recuperar uma condição física que havia se deteriorado ao longo dos anos.


Oswaldo Brandão e a missão de recuperar o Anjo das Pernas Tortas


A contratação de Garrincha colocou o técnico Oswaldo Brandão diante de um desafio que ia além das questões táticas. O jogador chegou ao Corinthians acima do peso considerado ideal e sofrendo as consequências de problemas persistentes nos joelhos, que haviam limitado suas atuações pelo Botafogo.


A comissão técnica decidiu submetê-lo a um programa específico de recuperação, conduzido pelo preparador físico José Teixeira. Antes de participar regularmente dos treinamentos coletivos, o ponta-direita precisava recuperar condicionamento, fortalecer a musculatura e readquirir confiança nos movimentos.


O trabalho começou ainda em janeiro e incluiu exercícios físicos, corridas e atividades de fortalecimento. Entre os métodos utilizados estava o chamado sapato de chumbo, equipamento pesado empregado para desenvolver a musculatura das pernas.


Em depoimento concedido à ESPN décadas depois, José Teixeira recordou que Garrincha demonstrou comprometimento com a preparação, respeitando horários e seguindo as atividades estabelecidas. O preparador também participava de exercícios individuais nos quais o jogador praticava os dribles que o haviam tornado mundialmente famoso.


Mesmo distante da melhor condição, Mané ainda preservava movimentos capazes de desconcertar seus marcadores. O desafio era recuperar resistência suficiente para reproduzir aquelas jogadas durante uma partida completa.


Garrincha aparece sentado após um treinamento, vestindo agasalho durante sua preparação física no Corinthians.
Garrincha após uma atividade de preparação física no Parque São Jorge, durante o trabalho de recuperação realizado em 1966. Foto: Acervo Corinthians

A pressão para que o reforço entrasse em campo, contudo, crescia a cada semana. O Corinthians havia realizado um investimento elevado e precisava apresentar sua principal contratação à torcida. Mesmo sem concluir integralmente a programação estabelecida, Garrincha acabaria estreando no início de março.


Oswaldo Brandão teria papel importante nessa fase da carreira do jogador. O treinador, que já havia conquistado o Campeonato Paulista de 1954, voltaria a entrar para a história alvinegra ao comandar o time responsável pelo fim do jejum estadual em 1977.


O InfoTimão recuperou essa trajetória em uma reportagem especial sobre Oswaldo Brandão, o técnico com mais jogos na história do Corinthians.


A estreia de Garrincha pelo Corinthians e o reencontro com o Botafogo


A primeira partida de Garrincha com a camisa do Corinthians aconteceu em 2 de março de 1966, contra o Vasco, no Pacaembu, pelo Torneio Rio-São Paulo.


Mais de 44 mil torcedores compareceram ao estádio para acompanhar o retorno do craque aos gramados. A expectativa era testemunhar alguns dos dribles, arrancadas e jogadas que haviam encantado o mundo nas Copas de 1958 e 1962.


O adversário, porém, transformou a estreia em frustração. O Vasco venceu por 3 a 0, com dois gols de Célio e um de Maranhão. Garrincha teve participação discreta e encontrou dificuldades para superar a marcação.


O resultado reforçou as dúvidas sobre sua condição física. O Corinthians havia contratado uma estrela mundial, mas ainda precisava encontrar uma maneira de aproveitar seu talento dentro de campo.


A situação ficou mais complicada na partida seguinte. Em 10 de março, Garrincha voltou ao Maracanã para enfrentar o Botafogo, clube no qual havia construído sua história. O reencontro terminou com uma goleada carioca por 5 a 1, em mais uma noite difícil para os corinthianos.


Garrincha domina a bola com a camisa branca do Corinthians durante uma partida contra o Botafogo no Maracanã.
Garrincha enfrenta o Botafogo, seu antigo clube, no Maracanã, durante o Torneio Rio-São Paulo de 1966. Foto: Acervo Corinthians

As duas primeiras apresentações pareciam confirmar que a recuperação seria mais difícil do que o imaginado. Mas a resposta viria rapidamente. Apenas três dias depois, uma atuação em Belo Horizonte devolveria parte do entusiasmo à torcida alvinegra.


Os dois gols de Garrincha pelo Corinthians e o golaço no Majestoso


O primeiro gol de Garrincha pelo Corinthians aconteceu em 13 de março de 1966, diante do Cruzeiro, no Mineirão, em um amistoso interestadual.


Depois de participar da jogada do primeiro gol, marcado por Tales, o ponta-direita apareceu novamente no momento decisivo. Com a partida empatada em 1 a 1, Garrincha superou a marcação e balançou as redes, garantindo a vitória corinthiana por 2 a 1.


A atuação recebeu elogios da imprensa e animou os torcedores, que finalmente puderam reconhecer alguns dos movimentos responsáveis por transformar Mané em um dos grandes nomes do futebol mundial.


O segundo e último gol do jogador com a camisa alvinegra seria ainda mais especial.


Em 19 de março de 1966, o Corinthians enfrentou o São Paulo, no Pacaembu, pelo Torneio Rio-São Paulo. O clássico representava uma oportunidade importante para a recuperação da equipe na competição e para Garrincha confirmar a evolução demonstrada diante do Cruzeiro.


Aos 34 minutos do primeiro tempo, o ponta-direita recebeu a bola de Tales, avançou pela direita e se aproximou da linha de fundo. Mesmo praticamente sem ângulo, conseguiu finalizar com efeito, surpreendendo a defesa adversária. A bola passou pelo goleiro Fábio, tocou na trave e entrou.


Era um golaço com a assinatura de Garrincha: drible, improviso e uma conclusão que contrariava a lógica do lance.


Garrincha, com a camisa branca do Corinthians, chuta em direção ao gol defendido por Fábio, do São Paulo, durante clássico em 1966.
Garrincha finaliza diante do goleiro Fábio, do São Paulo, durante o Majestoso disputado no Pacaembu em 1966. Foto: Reprodução

Tales marcou o segundo gol, e o Corinthians venceu o Majestoso por 2 a 0. A apresentação foi considerada uma das melhores de Garrincha durante sua passagem pelo Parque São Jorge e ajudou a despertar o interesse do técnico Vicente Feola, que preparava a Seleção Brasileira para a Copa do Mundo da Inglaterra.


Aquela vitória também fortaleceu uma expectativa que já vinha crescendo desde a chegada do jogador: o Corinthians parecia, finalmente, reunir condições de voltar a disputar títulos.


Foi justamente nesse ambiente que um apelido surgido na imprensa esportiva começaria a ganhar vida própria.


Como Garrincha ajudou a criar e eternizar o apelido Timão


A contratação de Garrincha não produziu a transformação esportiva esperada, mas teve uma consequência histórica que poucos torcedores conhecem. Foi no contexto daquele elenco de 1966 que o Corinthians passou a receber da imprensa o apelido “Timão”.


A origem está associada ao jornalista Thomaz Mazzoni, um dos nomes mais influentes da imprensa esportiva brasileira e responsável por popularizar expressões e denominações que atravessaram gerações.


A chegada de Garrincha, acompanhada das contratações de Ditão, Nair e outros jogadores de destaque, levou A Gazeta Esportiva a tratar o Corinthians como uma equipe de grande potencial. A expectativa de um elenco poderoso encontrou tradução em um apelido simples, mas destinado a permanecer na cultura do futebol.


Um dos registros históricos mais emblemáticos apareceu justamente após a vitória sobre o Cruzeiro, em 13 de março de 1966, quando Garrincha marcou seu primeiro gol pelo clube. Ao destacar o resultado de 2 a 1, a publicação utilizou a expressão:

"'Timão': 2 a 1"


O termo, inicialmente associado ao conjunto de grandes jogadores reunidos pelo Corinthians, foi incorporado ao vocabulário da torcida e acabou se tornando uma das principais formas de identificação do clube.


Jogadores do Corinthians posam para fotografia de equipe em 1966, com Garrincha agachado à esquerda.
Formação do Corinthians em 1966, com Garrincha entre os jogadores agachados, em partida contra a Portuguesa. Foto: Acervo Corinthians

É importante destacar que Garrincha não criou individualmente o apelido. Sua contratação, porém, foi o elemento de maior repercussão na formação daquela equipe e ajudou a impulsionar a expressão utilizada pela imprensa.


A ironia histórica é que o time de 1966 não conseguiu corresponder inteiramente às expectativas. Apesar de reunir jogadores importantes e conquistar o Torneio Rio-São Paulo, a equipe ficou distante de encerrar o jejum estadual que tanto incomodava os corinthianos.


O elenco acabou reformulado, Garrincha deixou o clube e a espera pelo Campeonato Paulista continuou. O apelido, entretanto, permaneceu.


Seis décadas depois, “Timão” já não depende da qualidade de uma escalação ou de uma campanha específica. Tornou-se sinônimo de Corinthians, repetido nas arquibancadas, nas transmissões esportivas, nas manchetes e nas conversas de milhões de torcedores.


O que nasceu como uma referência ao potencial de um elenco acabou se transformando em uma das expressões mais reconhecidas da história do futebol brasileiro.


O título do Rio-São Paulo de 1966 e o pênalti que poderia mudar a história


Mesmo sem repetir o futebol de seus melhores anos, Garrincha participou da conquista do Torneio Rio-São Paulo de 1966, competição que reunia alguns dos principais clubes do país.


Após vencer o São Paulo, o Corinthians sofreu uma derrota por 2 a 1 para o Palmeiras. Naquela partida, Garrincha teve a oportunidade de marcar novamente, mas desperdiçou uma cobrança de pênalti defendida por Valdir Joaquim de Moraes.


A recuperação veio diante do Flamengo, com vitória por 3 a 1, resultado que manteve o Corinthians na disputa pela liderança.


Na rodada final, em 27 de março, o adversário foi o Santos, no Pacaembu. O confronto carregava um peso adicional porque o clube alvinegro enfrentava um longo período de dificuldades diante do rival, especialmente em partidas do Campeonato Paulista.


O jogo caminhava para um empate sem gols quando Garrincha sofreu um pênalti cometido por Zito, já nos minutos finais. A cobrança ficou com Flávio Minuano, que acabou parando no goleiro Laércio.


A chance desperdiçada impediu uma vitória que poderia ter produzido uma comemoração muito mais intensa. O placar permaneceu em 0 a 0, e o Corinthians terminou a competição com 11 pontos, empatado com Botafogo, Santos e Vasco.


Como não havia datas disponíveis para a realização dos jogos de desempate, especialmente por causa da preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo, os quatro clubes foram declarados campeões.


O Corinthians conquistava, assim, o Torneio Rio-São Paulo de 1966, mas de maneira compartilhada. A taça entrou para a história oficial do clube, embora não tenha sido suficiente para encerrar a espera pelo Campeonato Paulista.


O jejum estadual somente terminaria em 13 de outubro de 1977, com o histórico gol de Basílio diante da Ponte Preta. O InfoTimão relembrou aquela conquista em uma reportagem especial sobre o título de 1977 e o fim de quase 23 anos de espera.


Garrincha foi o único jogador do Corinthians na Copa do Mundo de 1966


As atuações realizadas durante março de 1966 ajudaram Garrincha a conquistar uma oportunidade na Seleção Brasileira. Em 1º de abril, o jogador se apresentou ao técnico Vicente Feola para iniciar a preparação visando à Copa do Mundo da Inglaterra.


A convocação representava uma conquista pessoal. Depois de enfrentar dificuldades físicas e passar longos períodos afastado dos gramados, Mané teria a oportunidade de disputar seu terceiro Mundial.


Ao fim da preparação, Garrincha foi incluído entre os 22 jogadores convocados e se tornou o único representante do Corinthians no elenco brasileiro que disputou a competição.


O Brasil, entretanto, viveu uma campanha frustrante. A seleção venceu a Bulgária por 2 a 0 na estreia, mas perdeu para Hungria e Portugal, ambos por 3 a 1, sendo eliminada ainda na fase de grupos.


Garrincha disputou as duas primeiras partidas. Diante dos búlgaros, marcou um gol de falta, o último de sua trajetória pela Seleção Brasileira. Contra a Hungria, participou de uma derrota que simbolizou o encerramento de uma era.


O jogador que havia sido decisivo nos títulos mundiais de 1958 e 1962 já não apresentava a mesma explosão física. A preparação e a participação no Mundial também interromperam o trabalho específico de recuperação desenvolvido no Corinthians, criando novos obstáculos para seu retorno ao clube.


O retorno ao Corinthians, o encontro com Pelé e a despedida em 1966


Garrincha voltou ao Corinthians em agosto de 1966, mas encontrou um ambiente diferente daquele que o recebera no início do ano.


Oswaldo Brandão deixou o comando técnico e foi substituído por Filpo Nuñez. A mudança coincidiu com um período de dificuldades físicas para o ponta-direita, que precisava recuperar novamente o condicionamento depois da participação na Copa do Mundo.


Em setembro, Garrincha integrou a delegação corinthiana que viajou à Espanha para disputar o tradicional Troféu Ramón de Carranza. Atuou diante de Real Madrid e Zaragoza, mas não conseguiu recuperar o protagonismo observado em seus melhores momentos no primeiro semestre.


De volta ao Brasil, viveu um episódio histórico em 8 de outubro. Corinthians e Santos se enfrentaram pelo Campeonato Paulista, no Pacaembu, colocando Garrincha e Pelé em lados opostos.


O confronto terminou com vitória santista por 3 a 0, com três gols de Coutinho. A presença dos dois bicampeões mundiais, entretanto, tornou aquele encontro um dos registros mais marcantes da curta passagem de Mané pelo Corinthians.


O ponta-direita ainda disputaria partidas contra Botafogo de Ribeirão Preto e Portuguesa antes de sua última apresentação, em 23 de novembro de 1966, na vitória corinthiana por 1 a 0 sobre a Prudentina, no Pacaembu.


A despedida ocorreu sem a festa que havia marcado sua chegada. Os problemas físicos, as mudanças na comissão técnica e a dificuldade para recuperar espaço no time encerraram uma passagem iniciada sob enorme expectativa.


Anos depois, em entrevista ao programa Vox Populi, da TV Cultura, em 1978, Garrincha recordou que se sentia bem trabalhando com Oswaldo Brandão, mas não conseguiu manter a mesma relação depois da troca de treinador.


A saída do Corinthians não representou o encerramento imediato de sua trajetória no futebol. O jogador ainda passou por outros clubes, incluindo Junior de Barranquilla, Flamengo e Olaria, mas não voltou a alcançar a dimensão esportiva que o consagrara mundialmente.


Garrincha no Corinthians: números e estatísticas de 1966


Apesar da repercussão de sua contratação, a trajetória de Mané Garrincha pelo Corinthians ficou limitada a 13 partidas, todas como titular. Os números mostram uma passagem breve, mas que incluiu dois gols importantes e a participação em uma conquista interestadual.

Estatística

Números

Jogos pelo Corinthians

13

Partidas como titular

13

Vitórias

5

Empates

2

Derrotas

6

Aproveitamento

43,6%

Gols marcados

2

Títulos conquistados

1

O aproveitamento considera três pontos por vitória. O título conquistado foi o Torneio Rio-São Paulo de 1966, compartilhado com Botafogo, Santos e Vasco.


Quando Garrincha marcou seus gols pelo Corinthians?


Os dois gols de Garrincha pelo Corinthians foram marcados em março de 1966:

  • 13 de março de 1966: Cruzeiro 1 x 2 Corinthians, no Mineirão, em amistoso interestadual.

  • 19 de março de 1966: Corinthians 2 x 0 São Paulo, no Pacaembu, pelo Torneio Rio-São Paulo.


Datas marcantes de Garrincha no Corinthians

Data

Acontecimento

13/01/1966

Acerto da contratação e chegada a São Paulo

02/03/1966

Estreia contra o Vasco, no Pacaembu

13/03/1966

Primeiro gol, contra o Cruzeiro

19/03/1966

Golaço contra o São Paulo

27/03/1966

Conquista compartilhada do Rio-São Paulo

01/04/1966

Apresentação à Seleção Brasileira

08/10/1966

Encontro com Pelé no clássico contra o Santos

23/11/1966

Último jogo pelo Corinthians, diante da Prudentina


Acervo histórico: outros registros de Garrincha pelo Corinthians


A passagem de Garrincha pelo Corinthians também ficou documentada em fotografias que ajudam a reconstruir o cotidiano do jogador no clube. Dos treinamentos no Parque São Jorge aos lances dentro de campo, os registros preservam diferentes momentos de uma trajetória que, embora breve, permanece entre as mais emblemáticas da história alvinegra.


  • Garrincha chega ao Parque São Jorge para mais um treinamento durante sua passagem pelo Corinthians,
  • Observado por Baltazar, Garrincha participa de um treinamento durante sua passagem pelo Corinthians.
  • egistro histórico de Garrincha durante a jogada de seu gol contra o São Paulo
  • Garrincha em ação pelo Corinthians no Maracanã, durante sua passagem pelo clube em 1966.
  • Garrincha em ação pelo Corinthians durante o Majestoso disputado contra o São Paulo, no Pacaembu.

O legado de Garrincha no Corinthians vai muito além dos 13 jogos


Manoel Francisco dos Santos nasceu em 28 de outubro de 1933, em Pau Grande, distrito de Magé, no Rio de Janeiro. Sua trajetória no futebol ultrapassou fronteiras e transformou o menino que aprendeu a driblar nos campos de sua cidade em um dos maiores símbolos da história do esporte brasileiro.


No Botafogo e na Seleção Brasileira, Garrincha construiu uma carreira marcada por títulos, dribles desconcertantes e uma relação singular com o público. Foi protagonista das conquistas mundiais de 1958 e 1962, especialmente da campanha do bicampeonato, quando assumiu papel decisivo depois da lesão de Pelé.


No Corinthians, sua história foi diferente. Mané chegou quando o corpo já não acompanhava integralmente o talento que o transformara em lenda. A torcida encontrou um jogador disposto a recomeçar, mas que não conseguiu reproduzir durante uma temporada inteira o futebol que havia encantado o planeta.


Ainda assim, seria injusto reduzir sua passagem ao pequeno número de partidas ou às dificuldades enfrentadas dentro de campo. Garrincha participou de uma conquista, marcou um golaço em um Majestoso, representou o clube em uma Copa do Mundo e fez parte da equipe que ajudou a popularizar um apelido destinado a atravessar gerações.


Mas talvez a dimensão mais especial daquela experiência esteja na maneira como o jogador e Elza Soares foram recebidos pela torcida.


O casal desembarcou em São Paulo cercado de expectativas e encontrou uma multidão disposta a abraçá-lo. Elza, uma das maiores vozes da música brasileira, emocionou-se com o carinho dedicado ao companheiro. A chegada inspirou um samba, ganhou destaque na imprensa e transformou uma contratação esportiva em um acontecimento que atravessou os limites do futebol.


O Corinthians não recuperou completamente o craque que o mundo conhecera. Garrincha também não encontrou no Parque São Jorge a continuidade que desejava. Ainda assim, a ligação construída naquele período permaneceu viva em suas lembranças.


O ponta-direita morreu em 20 de janeiro de 1983, aos 49 anos. Seu nome permanece entre os maiores do esporte mundial, enquanto sua passagem pelo Corinthians continua sendo lembrada como uma das contratações mais emblemáticas da história do clube.


Em 1978, ao recordar o período em que vestiu a camisa alvinegra, Garrincha deixou uma declaração simples, mas capaz de resumir o sentimento que guardava daquela experiência:


"Eu sou corintiano, gosto do Corinthians."

A frase ganha um significado ainda maior quando recuperamos a emoção de Elza na chegada do casal, 12 anos antes. O vínculo com o clube não nasceu de uma longa trajetória de vitórias ou de uma coleção de troféus, mas do acolhimento recebido de uma torcida que reconheceu a grandeza de seu ídolo mesmo quando ele já enfrentava dificuldades para voltar a ser o jogador de outros tempos.


Sessenta anos depois, Garrincha permanece presente na memória alvinegra. Não apenas pelos dois gols, pelo Rio-São Paulo de 1966 ou pela participação na origem do apelido Timão, mas também pela relação de carinho construída com o Corinthians e sua torcida.


O Garrincha que chegou ao Parque São Jorge já não era o mesmo que havia conquistado o mundo. Mas ajudou a dar nome a um Timão que o mundo inteiro aprenderia a conhecer.


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