Corinthians: MP investiga acordos da gestão Duílio e recorre no caso Stabile

Promotoria apura renegociações com empresários realizadas em 2023 e tenta reverter decisão que rejeitou denúncia contra o atual presidente no caso Bear Security.

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu uma investigação criminal sobre cinco acordos de renegociação de dívidas firmados pelo Corinthians durante a gestão de Duílio Monteiro Alves, envolvendo aproximadamente R$ 40,9 milhões. Em outra frente, a Promotoria recorreu da decisão da Justiça que rejeitou a denúncia por suposta apropriação indébita contra o atual presidente do clube, Osmar Stabile, relacionada à contratação da empresa de segurança Bear Security.
As duas movimentações representam novos desdobramentos de apurações envolvendo a administração e os recursos financeiros do Corinthians, mas tratam de fatos, períodos e procedimentos distintos. A investigação sobre a gestão Duílio busca esclarecer se o clube reconheceu obrigações que já poderiam estar prescritas e se as renegociações provocaram prejuízos. No caso Stabile, o Ministério Público tenta reverter uma decisão judicial para que a acusação criminal possa avançar.
O procedimento sobre os acordos de 2023 foi instaurado em 29 de outubro, por meio de uma portaria assinada pelo promotor Cássio Roberto Conserino. A informação foi divulgada inicialmente pelo Blog do Macedo e confirmada pelo Meu Timão. A apuração envolve operações com empresas ligadas aos empresários Carlos Leite e André Cury, além da análise da participação de dirigentes responsáveis pelos compromissos.
Já o recurso relacionado à Bear Security contesta o entendimento da 2ª Vara Criminal de São Paulo, que considerou insuficientes os elementos apresentados para instaurar uma ação penal contra Osmar Stabile. A Promotoria sustenta que existem indícios que justificam o prosseguimento da acusação, enquanto a defesa do presidente afirma que os serviços foram contratados para atender necessidades de segurança relacionadas ao exercício do cargo.
Nenhuma das duas iniciativas representa comprovação de crime ou condenação dos envolvidos. O primeiro caso está na fase de investigação criminal, enquanto o segundo aguarda uma nova análise judicial sobre o recebimento da denúncia.
MP investiga acordos de mais de R$ 40 milhões na gestão Duílio
A nova investigação do Ministério Público teve origem em uma representação apresentada pelo associado Cyrillo Cavalheiro Neto, em outubro de 2025, tanto à Promotoria quanto ao Conselho Deliberativo do Corinthians.
O documento questionava cinco acordos de novação e repactuação de dívidas celebrados durante o último ano da administração de Duílio Monteiro Alves, envolvendo obrigações relacionadas à intermediação de jogadores, direitos de imagem e empréstimos realizados ao clube.
Na avaliação apresentada pelo representante, as operações poderiam ter reconhecido créditos cuja cobrança judicial já estaria impedida pela prescrição, além de levantar dúvidas sobre o cumprimento das normas internas do Corinthians e a existência de vantagens econômicas para a instituição.
A abertura do Procedimento Investigatório Criminal (PIC) permitirá ao Ministério Público aprofundar essas questões, especialmente para determinar se as renegociações foram justificadas por obrigações legítimas e se suas condições trouxeram algum prejuízo ao patrimônio alvinegro.
A portaria assinada por Cássio Conserino também prevê a apuração da participação de dirigentes, profissionais envolvidos na elaboração dos contratos e eventuais beneficiários dos pagamentos.
Entre as hipóteses mencionadas pela Promotoria estão possíveis crimes patrimoniais, como apropriação indébita e furto qualificado pelo abuso de confiança, além de questionamentos relacionados à gestão temerária.
Esses enquadramentos, porém, representam possibilidades investigativas. A existência dos acordos e de dívidas renegociadas não demonstra, por si só, que houve fraude, favorecimento indevido ou participação criminosa dos envolvidos.
O objetivo inicial será reconstruir a origem das obrigações, identificar quem autorizou as operações, verificar as condições de pagamento e analisar se o Corinthians recebeu contrapartidas compatíveis com os compromissos assumidos.

Quais são as renegociações analisadas pelo Ministério Público?
O maior acordo incluído na investigação foi assinado em 6 de novembro de 2023, entre o Corinthians e a RC Consultoria & Assessoria Esportiva, empresa ligada ao empresário Carlos Leite.
O instrumento reconheceu aproximadamente R$ 22,7 milhões em obrigações relacionadas à intermediação de operações envolvendo Cássio, Fagner, Elias e Ramon Motta, além de pendências referentes aos direitos de imagem de Felipe Bastos e Matheus Matias.
A renegociação foi estruturada por meio de novação, mecanismo jurídico pelo qual uma obrigação anterior é substituída por outra, com novas condições estabelecidas entre as partes.
O acordo também tinha relação com créditos que o Corinthians receberia da Brax Produções e Publicidade, empresa que adquiriu os direitos de exploração das placas publicitárias das partidas do clube como mandante no Campeonato Brasileiro entre 2025 e 2029.
Na ocasião, a administração corinthiana se comprometeu a utilizar parte desses recebíveis futuros para quitar obrigações relacionadas às empresas de Carlos Leite.
A participação da Brax na estrutura de pagamento não significa, por si só, que a companhia seja investigada por irregularidades.
As outras quatro operações foram celebradas em 25 de abril de 2023, envolvendo a Link Assessoria Esportiva e Propaganda Ltda., ligada a André Cury, e o próprio empresário.
Duas renegociações tratavam de comissões por intermediação: uma de R$ 2 milhões, relacionada aos jogadores Otero, Cazares e Ederson, e outra de R$ 822 mil, especificamente referente a Ederson.
Um terceiro instrumento, de R$ 9,398 milhões, abrangia pendências vinculadas a contratos de direitos de imagem e voz de Ederson, Cazares, Otero e Yago.
O último acordo envolvia um empréstimo realizado por André Cury ao Corinthians. O débito original, de R$ 3,2 milhões, foi atualizado para R$ 5,94 milhões na repactuação assinada em abril de 2023.
Confira os cinco acordos analisados pelo MP-SP:
Data | Acordo | Valor |
06/11/2023 | RC Consultoria, ligada a Carlos Leite | R$ 22,7 milhões |
25/04/2023 | Link Assessoria, intermediação de atletas | R$ 2 milhões |
25/04/2023 | Link Assessoria, intermediação de Ederson | R$ 822 mil |
25/04/2023 | Link Assessoria, direitos de imagem | R$ 9,398 milhões |
25/04/2023 | André Cury, empréstimo renegociado | R$ 5,94 milhões |
Total | Cinco operações | R$ 40,86 milhões |
Os valores correspondem aos montantes estabelecidos nas renegociações, considerando as cifras divulgadas. Não significam que o Corinthians tenha desembolsado integralmente R$ 40,86 milhões, tampouco que esse seja o valor de um eventual prejuízo ao clube.
Uma das questões centrais será justamente identificar quanto foi efetivamente pago, quais obrigações permanecem em aberto e se as condições estabelecidas trouxeram vantagens ou perdas financeiras à instituição.
Corinthians terá de apresentar documentos sobre os contratos
Para avançar na investigação, o Ministério Público determinou que o Corinthians apresente, no prazo de dez dias previsto na requisição, os documentos originais que deram origem às obrigações renegociadas em 2023.
A Promotoria solicitou comprovantes bancários dos pagamentos realizados, atas de reuniões, pareceres, autorizações e informações sobre os beneficiários finais dos valores envolvidos. O Conselho Deliberativo também deverá informar quais providências adotou após receber a representação apresentada pelo associado em outubro de 2025.
O objetivo das diligências é esclarecer a regularidade dos contratos e verificar uma das principais hipóteses levantadas: a possibilidade de o Corinthians ter reconhecido dívidas que já poderiam estar prescritas, restabelecendo condições de cobrança que merecem exame jurídico.
A prescrição, entretanto, não significa necessariamente a extinção da obrigação material. Em determinadas situações, ela impede sua cobrança judicial, mas não torna automaticamente ilícito o reconhecimento ou o pagamento voluntário de uma dívida.
Da mesma forma, a celebração de uma novação não representa, por si só, fraude ou desvio de recursos. A análise depende da natureza das obrigações originais, das condições negociadas e da eventual existência de prejuízo ou favorecimento indevido.
No caso do empréstimo de André Cury, por exemplo, a investigação deverá examinar como o débito original de R$ 3,2 milhões chegou ao valor atualizado de R$ 5,94 milhões e quais critérios contratuais fundamentaram essa evolução.
A Promotoria também determinou o encaminhamento de uma cópia da portaria à área do Ministério Público responsável por uma investigação civil mais ampla sobre a administração do Corinthians e a possibilidade de intervenção judicial.
Essa comunicação poderá permitir o compartilhamento de informações entre procedimentos, mas não significa que uma intervenção tenha sido determinada ou que as irregularidades investigadas estejam comprovadas.
Sobre as manifestações dos envolvidos, o UOL informou ter procurado Duílio Monteiro Alves para comentar a nova investigação, sem registrar resposta até a publicação de sua reportagem. Não há, no material consultado, posicionamentos específicos de Carlos Leite e André Cury sobre a instauração deste PIC.
A ausência dessas manifestações não deve ser interpretada como reconhecimento das suspeitas. Os envolvidos poderão apresentar documentos e esclarecimentos ao longo da apuração.
MP recorre após Justiça rejeitar denúncia contra Osmar Stabile
Em uma frente independente da investigação sobre os contratos da gestão Duílio, o Ministério Público apresentou recurso contra a decisão que rejeitou a denúncia por suposta apropriação indébita envolvendo Osmar Stabile e a Bear Security.
A acusação havia sido formalizada em setembro e questionava o pagamento de R$ 721.194,66 pelo Corinthians à empresa, entre julho de 2025 e agosto de 2026.
Segundo a Promotoria, os serviços teriam sido utilizados em benefício pessoal do presidente e, possivelmente, de seus familiares, embora os custos fossem suportados pelo clube.
No recurso, Cássio Conserino argumenta que a decisão de primeira instância foi prematura e que os elementos reunidos durante a investigação seriam suficientes para permitir a abertura da ação penal e a produção de provas.
Um dos principais argumentos está relacionado à existência de uma estrutura de segurança institucional já contratada pelo Corinthians, prestada pela empresa Unity.
Para o Ministério Público, essa circunstância colocaria em dúvida a necessidade de uma contratação adicional destinada especificamente à proteção de Stabile.
A Promotoria também menciona registros de profissionais acompanhando familiares do presidente em compromissos particulares e questiona a regularidade da Bear Security perante a Polícia Federal.
Outro ponto envolve a interpretação do Estatuto Social do Corinthians. O Ministério Público sustenta que a utilização de recursos da instituição para finalidades exclusivamente particulares poderia contrariar as normas internas que restringem despesas não relacionadas aos interesses do clube.
Esses argumentos são utilizados para defender o recebimento da denúncia, mas ainda dependem de apreciação judicial. O recurso não representa a aceitação da acusação nem comprova a existência de apropriação indébita.

Por que a Justiça rejeitou a denúncia no caso Bear Security?
A denúncia contra Osmar Stabile foi rejeitada em decisão divulgada em 29 de outubro, pela juíza Daniela Martins de Castro Mariani Cavallanti, da 2ª Vara Criminal de São Paulo.
A magistrada considerou que os elementos apresentados pelo Ministério Público não demonstravam justa causa suficiente para a abertura de uma ação penal por apropriação indébita.
Entre os fundamentos utilizados, destacou que os serviços de segurança foram efetivamente prestados e que os pagamentos ocorreram diretamente à empresa contratada, com emissão de notas fiscais e registros contábeis.
A decisão também considerou que a contratação era conhecida pelo Corinthians e havia passado por mecanismos internos de controle. Para a juíza, a documentação apresentada não demonstrava que Stabile tivesse incorporado recursos da instituição ao patrimônio pessoal ou se apropriado indevidamente dos valores pagos.
Outro aspecto relevante foi a distinção entre possíveis infrações administrativas e a prática de um crime.
Segundo o entendimento da magistrada, eventual descumprimento do Estatuto Social ou irregularidade no processo de contratação não configura automaticamente apropriação indébita. Para justificar a abertura da ação penal, seriam necessários elementos suficientes relacionados à conduta criminosa atribuída ao presidente.
O Ministério Público discorda dessa avaliação. A Promotoria argumenta que o benefício patrimonial poderia decorrer da utilização de serviços particulares custeados pelo Corinthians, independentemente de os pagamentos terem sido realizados diretamente à empresa.
A controvérsia está, portanto, na interpretação da finalidade da contratação e na suficiência dos indícios apresentados para permitir o prosseguimento da acusação criminal.
Em manifestações anteriores, a defesa de Stabile sustentou que os serviços foram contratados em razão dos riscos à segurança do presidente e de seus familiares durante o exercício do cargo, em um período de instabilidade política no clube. O Corinthians também afirmou que a contratação tinha justificativa institucional e seguiu procedimentos internos.
Essas manifestações foram apresentadas no contexto da investigação e da denúncia original. Não devem ser confundidas com uma resposta específica ao novo recurso.
A Justiça também rejeitou os pedidos cautelares apresentados pelo MP-SP, incluindo o afastamento de Stabile da presidência, o bloqueio de bens e restrições relacionadas ao acesso ao clube e ao contato com envolvidos no caso.
A decisão judicial não encerra todos os questionamentos sobre a contratação. Conforme noticiou o InfoTimão, a Comissão de Ética e Disciplina do Corinthians converteu a investigação interna sobre contratos de segurança para o rito estatutário de destituição.
O procedimento disciplinar e a discussão criminal possuem finalidades distintas. A rejeição da denúncia não determina o encerramento da apuração interna, assim como a conversão do rito estatutário não comprova a existência de crime.
O que acontece agora nas duas investigações?
As duas iniciativas do Ministério Público terão encaminhamentos diferentes nas próximas etapas.
Na investigação sobre os acordos da gestão Duílio, o Corinthians deverá apresentar os documentos requisitados pela Promotoria, incluindo os instrumentos originais das dívidas, comprovantes de pagamento e informações sobre quem autorizou as renegociações e recebeu os valores.
O Conselho Deliberativo também terá de prestar esclarecimentos sobre as providências adotadas após a representação de outubro de 2025.
Com esses elementos, o MP-SP poderá aprofundar a análise das operações, solicitar novas informações e ouvir pessoas envolvidas nos acordos. O objetivo será determinar se existem indícios concretos de prejuízo patrimonial ou condutas que justifiquem eventual responsabilização criminal.
No caso Bear Security, a próxima etapa será a análise do recurso apresentado contra a rejeição da denúncia de Osmar Stabile.
Se a decisão for revertida e a acusação recebida, poderá ser aberta a ação penal, com oportunidade para apresentação de defesa, produção de provas e posterior julgamento. Se a rejeição for mantida, prevalecerá o entendimento de que os elementos apresentados não justificavam o recebimento da denúncia naquela etapa.
Em qualquer cenário, o recurso ainda não representa uma condenação e não produz automaticamente o afastamento do presidente do Corinthians.
Embora os dois procedimentos envolvam diferentes administrações, ambos tratam de questões relacionadas à documentação de despesas, à regularidade de decisões financeiras e à responsabilidade de dirigentes na utilização dos recursos da instituição.
A investigação dos acordos de 2023 procura esclarecer a origem e as condições de renegociação de obrigações antigas. Já o recurso envolvendo Stabile discute se os elementos reunidos sobre a contratação da Bear Security são suficientes para justificar o início de uma ação penal.
O Corinthians terá de colaborar com novas diligências em uma frente, enquanto aguarda a revisão de uma decisão judicial na outra. Os resultados dependerão das provas apresentadas e das decisões das autoridades competentes, sem que seja possível antecipar a conclusão de qualquer um dos procedimentos.
O InfoTimão seguirá acompanhando a investigação sobre os acordos firmados na gestão Duílio, o recurso envolvendo Osmar Stabile e os demais procedimentos relacionados à administração e às finanças do Corinthians, com atenção às manifestações dos envolvidos e aos próximos desdobramentos judiciais.
E você, torcedor: como avalia as novas iniciativas do Ministério Público para investigar contratos e movimentações financeiras do Corinthians? Deixe sua opinião nos comentários.
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InfoTimão, informação de corinthiano para corinthiano.






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