SAFiel relata retomada do diálogo com Corinthians, mas admite resistências ao projeto
- Redação InfoTimão

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Após reunião de cerca de quatro horas no Parque São Jorge, clube reunirá dúvidas jurídicas, financeiras e societárias; grupo terá uma semana para responder

A reunião entre a cúpula do Corinthians e representantes da SAFiel, realizada na noite desta quarta-feira (26), terminou sem qualquer compromisso de assinatura ou aceitação do projeto, mas com a retomada do diálogo institucional entre as partes.
Após cerca de quatro horas de conversa no Parque São Jorge, Eduardo Salusse e Carlos Teixeira informaram que o clube reunirá seus questionamentos técnicos por escrito até esta sexta-feira (28). O grupo terá uma semana para respondê-los.
Participaram do encontro o presidente do Corinthians, Osmar Stabile, o presidente do Conselho Deliberativo, Romeu Tuma Júnior, o presidente do Conselho de Orientação (Cori), Miguel Marques, o presidente do Conselho Fiscal, Haroldo Dantas, além de integrantes da diretoria e do Comitê de Acompanhamento SAFiel (CAS).
Na prática, o avanço foi processual, não político. O encontro estabeleceu um fluxo para que o Corinthians formalize suas dúvidas e a SAFiel apresente as respostas, mas não produziu qualquer sinalização de que o clube esteja disposto a aprovar o modelo ou assinar a proposta não vinculante.
Assista o vídeo da entrevista completa:
Reunião começou com “roupa suja” entre as partes
Ao comentar o ambiente do encontro, Salusse afirmou que a conversa começou com a exposição de incômodos acumulados durante os últimos meses. Apesar disso, o advogado classificou o clima como cordial e disse que houve uma tentativa de reconstruir a relação entre a SAFiel e os representantes do Corinthians.
“Foi uma reunião muito amistosa, que começou, digamos assim, lavando roupa suja e aparando alguns pontos. Mas foi um clima muito cordial e restabelecendo um ambiente de cooperação”, afirmou.
Segundo Salusse, parte dos desconfortos apresentados pelos dirigentes estava relacionada à exposição de dados pessoais, ofensas e manifestações agressivas feitas por terceiros. Dentro do clube, algumas dessas atitudes teriam sido associadas à SAFiel, especialmente porque o projeto passou a funcionar como um catalisador da indignação de parte da torcida com a situação política, administrativa e financeira do Corinthians.
Os representantes da SAFiel, por outro lado, manifestaram insatisfação com as dificuldades encontradas para serem recebidos, apresentarem o projeto e obterem uma tramitação considerada regular desde o início das conversas.
“Manifestamos o nosso inconformismo nesses quase um ano em que o projeto tem sido apresentado, com propostas apresentadas e dificuldades de sermos recebidos, ouvidos e de haver uma regular tramitação. Esperamos que tenha sido tudo página virada”, declarou Salusse.
“Não houve sinal de aceitação”, ressalta Salusse
Apesar da avaliação positiva sobre o ambiente da reunião, Salusse procurou conter qualquer interpretação de que o Corinthians tenha demonstrado concordância com a criação da SAF. O advogado reconheceu que havia participantes previamente favoráveis ao projeto, enquanto outros apresentavam resistência.
“As coisas não são simples a ponto de serem resolvidas em uma reunião de três ou quatro horas. Há uma sequência de novas reuniões e etapas a serem desenvolvidas para que possamos caminhar em prol de um desfecho positivo”, explicou.
“Não significa que houve nenhum sinal de aceitação. Muito pelo contrário, há uma série de dúvidas e resistências. Pela quantidade de pessoas que estavam lá, ficou muito claro que algumas são, a priori, favoráveis e outras são, a priori, contrárias”, acrescentou.
Para Salusse, o ponto positivo foi a disposição dos envolvidos para diminuir as distâncias e aprofundar o debate. Essa aproximação, segundo ele, começará pelo esclarecimento de questões jurídicas, financeiras, societárias e relacionadas aos mecanismos de controle da futura SAF.
Corinthians apresentará dúvidas por escrito
Carlos Teixeira explicou que os questionamentos apresentados durante o encontro abordaram temas considerados naturais para um projeto dessa dimensão. Entre os assuntos debatidos estavam a estrutura societária da SAFiel, o processo de capitalização e os mecanismos previstos para a administração do futebol.
“São dúvidas comuns. Falou-se muito sobre questões técnicas, questões societárias e questões de capitalização da SAF. São dúvidas naturais em um projeto desse tamanho”, afirmou.
Segundo os representantes da SAFiel, ficou acertado que o Corinthians consolidará todas as perguntas em um documento e o encaminhará até esta sexta-feira. A partir do recebimento, o grupo terá uma semana para preparar as respostas.
Salusse afirmou que parte dos questionamentos poderia ter sido respondida verbalmente durante a reunião. A opção por um documento formal foi tomada para permitir que as explicações sejam compartilhadas com dirigentes, conselheiros, associados, integrantes do CAS e torcedores.
“Poderíamos até ter respondido verbalmente a maior parte delas, mas o ideal é que o documento com as respostas seja compartilhado entre os demais interessados. Vamos fazer algo escrito, bem feito e de maneira didática para tirar as dúvidas de todos, inclusive dos torcedores”, explicou.
O que significa a proposta não vinculante
Outro tema debatido foi o caráter não vinculante do documento apresentado pela SAFiel. Dentro do Corinthians, existem questionamentos sobre as obrigações que poderiam ser assumidas pelo clube caso a proposta fosse assinada.
De acordo com a interpretação apresentada por Salusse, a expressão “não vinculante” significa que o Corinthians não estaria obrigado a aprovar a criação da SAF ao final do processo. Para que o projeto avance até uma possível decisão, porém, seriam necessárias etapas intermediárias, como o compartilhamento de informações, a avaliação dos ativos e a realização de estudos técnicos.
“O que é não vinculante é a aceitação ou não da SAF. Não há uma obrigação, a priori, neste momento. É óbvio que, para chegar ao momento de decisão, você precisa seguir etapas”, explicou.
Salusse classificou essas etapas como “obrigações de meio”, que permitiriam o desenvolvimento dos estudos sem obrigar o Corinthians a aprovar a operação posteriormente.
“É preciso que o clube colabore, disponibilize dados, apresente o valor dos ativos e exponha as suas dúvidas. O documento impõe obrigações de meio que não necessariamente obrigam a aprovação da SAF ao final”, acrescentou.
A explicação representa o entendimento dos idealizadores da SAFiel. A extensão de eventuais obrigações dependerá do conteúdo final do documento, de sua assinatura e da análise jurídica realizada pelas partes.
Assinatura não foi descartada, mas segue sem prazo
Questionados se haviam desistido de buscar a assinatura da proposta não vinculante, os representantes da SAFiel responderam negativamente. Segundo Salusse, o grupo decidiu priorizar neste momento a reconstrução da comunicação e o esclarecimento das dúvidas apresentadas.
“O passo dado foi no sentido de primeiro restabelecer uma harmonia comunicacional. O contato será feito de maneira tranquila, serena, séria e responsável. Vamos virar a página em relação a eventuais dissabores e inconvenientes que tenham ocorrido de parte a parte”, declarou.
A discussão sobre uma possível assinatura deverá ser retomada somente depois da entrega das respostas. Por enquanto, não existe prazo para que o Corinthians decida se assinará o documento ou permitirá o início dos estudos previstos no projeto.
Salusse afasta uso político da reunião
O encontro aconteceu próximo da eleição presidencial do Corinthians e após uma sequência de manifestações da torcida contra a administração e a política interna do clube. Questionado sobre uma eventual utilização política da reunião, Salusse afirmou que não teve essa percepção.
“De minha parte, não houve nenhuma conotação política. É óbvio que estarmos a poucas semanas da eleição acaba sendo algum entrave, mas a vida segue. A eleição será realizada e não temos a mínima previsibilidade sobre quem será eleito”, disse.
O advogado acrescentou que a SAFiel pretende continuar discutindo e aperfeiçoando o projeto independentemente do resultado eleitoral.
“O projeto será melhorado, as distâncias serão reduzidas e vamos seguir dessa maneira com o presidente que eventualmente for eleito, seja ele quem for”, completou.
Carlos Teixeira também avaliou positivamente a participação de Romeu Tuma Júnior. Segundo o empresário, o presidente do Conselho Deliberativo entregou aos representantes da SAFiel um documento com dúvidas próprias e questionamentos apresentados por associados.
“O presidente do Conselho nos entregou um documento redigido dentro do Conselho, com dúvidas dele e dos sócios. Fez perguntas e interações bastante importantes. A interação foi muito boa, assim como com o presidente Osmar”, afirmou.
Entenda o projeto da SAFiel
A proposta apresentada pela SAFiel prevê a criação de uma Sociedade Anônima do Futebol para administrar as operações do departamento de futebol do Corinthians. O projeto estima uma captação de R$ 2,5 bilhões, com possibilidade de alcançar R$ 3 bilhões.
Segundo o grupo, os recursos seriam utilizados para reestruturar as dívidas relacionadas ao futebol, realizar investimentos esportivos, modernizar a infraestrutura, implementar mecanismos de governança e fortalecer o clube social.
O modelo prevê a participação direta de torcedores como acionistas, com investimentos a partir de R$ 250 e limitação de participação por CPF. Uma eventual implementação ainda dependeria de estudos técnicos, auditoria independente, validações regulatórias, aprovação dos órgãos estatutários do Corinthians e decisão final dos associados em Assembleia Geral.
Depois da entrega das respostas, as partes deverão avaliar se existem condições para avançar à etapa seguinte. Até lá, o canal de diálogo está restabelecido, mas a SAFiel continua sem aprovação formal ou compromisso de assinatura por parte do Corinthians.
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