MP abre investigação criminal sobre R$ 6,9 milhões pagos pelo Corinthians no Fiel da Sorte
- Redação InfoTimão

- há 9 horas
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Promotoria vai rastrear pagamentos e apurar possível desvio de recursos; clube é tratado como vítima no procedimento

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para apurar possíveis crimes na relação contratual entre o Corinthians e a Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing, empresa responsável pelo programa Fiel da Sorte.
O procedimento foi instaurado nesta quarta-feira (12) pelo promotor de Justiça Criminal Cássio Roberto Conserino. O Corinthians é tratado como vítima na investigação, que buscará identificar a origem, as autorizações e o destino dos valores pagos à empresa.
O PIC é um instrumento utilizado pelo Ministério Público para reunir documentos, depoimentos e outros elementos durante uma investigação. A abertura do procedimento não representa denúncia criminal, condenação ou comprovação das irregularidades citadas na portaria.
A informação foi divulgada inicialmente pelo ge e confirmada pelo Meu Timão. A instauração do PIC representa um avanço em relação à análise preliminar iniciada no final de julho, quando o Ministério Público solicitou explicações ao Corinthians sobre o contrato.
Na ocasião, o clube recebeu prazo de dez dias úteis para responder aos questionamentos. Segundo a nova portaria, as próprias informações apresentadas pelo Corinthians reforçaram a necessidade de aprofundar a investigação.
Resposta do Corinthians reforçou necessidade de investigação
De acordo com o documento do Ministério Público, o Corinthians informou que a Incentiva teria descumprido de maneira voluntária e reiterada obrigações previstas no contrato.
Entre as pendências estavam relatórios e documentos de prestação de contas que deveriam servir como base para o cálculo dos valores pagos mensalmente à empresa. Segundo o clube, esse material nunca foi apresentado.
Apesar da ausência dos documentos, os repasses continuaram sendo realizados. Para a Promotoria, a situação levanta questionamentos sobre a comprovação dos serviços prestados e os mecanismos de fiscalização utilizados pelo Corinthians.
A resposta do clube também informou que as cobranças pelos relatórios começaram em dezembro de 2025, sem retorno da Incentiva. Mesmo assim, uma notificação extrajudicial formal foi encaminhada somente em 1º de junho de 2026.
Na ocasião, o Corinthians concedeu três dias úteis para a entrega de toda a documentação pendente, sob pena de rescisão motivada do contrato.
“Tais relatórios, contudo, nunca foram apresentados. A partir de dezembro de 2025, o Peticionário passou a cobrá-los reiteradamente, inclusive por e-mail e por aplicativo de mensagens, sem qualquer atendimento por parte da contratada”, afirmou o clube em trecho da resposta encaminhada ao MP-SP.
A Promotoria pretende esclarecer por que os pagamentos permaneceram ativos mesmo sem a apresentação dos relatórios e por que a notificação extrajudicial ocorreu apenas meses depois do início das cobranças.
Corinthians pagou R$ 6,9 milhões líquidos à Incentiva
A relação entre Corinthians e Incentiva resultou em R$ 7.604.109,40 em pagamentos brutos. Após a retenção do Imposto de Renda, o valor líquido recebido pela empresa foi de R$ 6.912.103,15.
Os repasses foram realizados entre agosto de 2023 e abril de 2026. Durante esse período, o contrato atravessou as administrações de Duilio Monteiro Alves, Augusto Melo e Osmar Stabile.
O primeiro pagamento identificado foi de R$ 124.488,75. Já a última parcela quitada pelo Corinthians chegou a R$ 343.522,50.
A Incentiva recebia R$ 3,75 mensais por cada torcedor que ingressasse no Fiel Torcedor depois do início da parceria e permanecesse adimplente. Com o crescimento do quadro de associados, os valores das parcelas aumentaram progressivamente.
O InfoTimão explicou anteriormente como funcionava o Fiel da Sorte, por que os pagamentos continuaram e quais dúvidas existiam sobre a realização dos sorteios.
MP vai rastrear origem e destino dos recursos
Entre as diligências determinadas, o Ministério Público pretende identificar quais contas bancárias do Corinthians foram utilizadas nos pagamentos, quem autorizou cada transferência e quais pessoas ou empresas receberam os recursos.
A investigação também buscará verificar se parte do dinheiro retornou para dirigentes, funcionários ou colaboradores do clube.
A hipótese de uma eventual devolução de valores integra a apuração, mas ainda não existe comprovação de que isso tenha ocorrido. O objetivo do PIC será justamente reunir documentos e informações bancárias capazes de confirmar ou descartar essa possibilidade.
O Corinthians terá de fornecer os dados relacionados ao pagamento das notas fiscais previstas no contrato, incluindo a identificação das contas utilizadas e das pessoas responsáveis pelas autorizações.
A Promotoria também analisará a existência de notas fiscais que teriam sido canceladas e posteriormente reemitidas com valores coincidentes.
Possíveis crimes citados pelo Ministério Público
Na portaria, Cássio Conserino cita, em tese, possíveis crimes de estelionato, furto, apropriação indébita, crime tributário, falsidade ideológica e associação criminosa, além de outros delitos que possam ser identificados durante a investigação.
A menção aos crimes não representa acusação formal ou comprovação de irregularidades. O Procedimento Investigatório Criminal ainda está na fase de coleta de documentos, informações bancárias e depoimentos.
Somente depois do cumprimento das diligências o Ministério Público decidirá se existem elementos para apresentar uma denúncia, solicitar novas providências ou encerrar a apuração.
Endereço da Incentiva também será investigado
Outro ponto citado na portaria envolve o endereço utilizado pela Incentiva.
Segundo o documento, registros públicos indicam que a empresa funcionava no mesmo local físico de outra companhia ligada a familiares de integrantes da diretoria do Corinthians na época da contratação.
O Ministério Público pretende identificar quem utilizava efetivamente o endereço, quais atividades eram realizadas no local e se existia alguma relação entre as empresas.
A Promotoria também determinou o levantamento dos dados de todos os sócios que passaram pela Incentiva durante a vigência da parceria.
A empresa foi fundada em agosto de 2021 por Rodrigo Gilotti e passou por sucessivas alterações societárias. Em setembro de 2024, foi vendida para João Augusto de Queiroga Vanderley. A Incentiva possuía capital social de R$ 50 mil e teria o Corinthians como único cliente.
Pessoas ligadas ao contrato serão identificadas
Além dos sócios da Incentiva, o MP-SP solicitou informações sobre pessoas que participaram da criação, execução ou resposta jurídica relacionada ao contrato.
Entre os nomes citados está Mário Barros, gerente de marketing do Corinthians no período em que a empresa foi contratada.
Também serão levantadas informações sobre Rodrigo Gilotti, fundador da Incentiva, e o advogado Carlos Alberto de Sá Romano, responsável por elaborar a resposta da empresa à notificação extrajudicial enviada pelo clube.
O objetivo será identificar a participação de cada pessoa na contratação, na prestação dos serviços, na emissão dos documentos fiscais e nas comunicações trocadas com o Corinthians.
MP vai cruzar documentos com outras investigações
As notas fiscais e movimentações financeiras relacionadas ao Fiel da Sorte serão comparadas com documentos de outros procedimentos investigatórios e ações penais envolvendo o Corinthians.
Entre os casos citados estão apurações sobre o suposto uso irregular de cartões corporativos durante as administrações de Andrés Sanchez, Duilio Monteiro Alves e Augusto Melo.
O MP-SP também pretende avaliar uma possível relação com investigações envolvendo a contratação de empresas de segurança pelo Corinthians. Uma delas prestou serviços ao clube sem possuir autorização da Polícia Federal para atuar no setor. Outra era responsável pela segurança particular de Osmar Stabile e de seus familiares.
O InfoTimão mostrou recentemente que o Ministério Público agendou depoimentos de Osmar Stabile sobre as empresas de segurança e o inquérito que analisa a situação administrativa do clube.
A Promotoria também conduz uma investigação sobre repasses milionários em dinheiro vivo ao ex-chefe de segurança do Corinthians, realizados entre 2018 e 2023.
A existência de diferentes procedimentos não significa que os casos já estejam conectados ou que as irregularidades tenham sido comprovadas. O Ministério Público utilizará o cruzamento dos documentos para verificar se existem pessoas, empresas ou movimentações financeiras em comum.
Entenda o caso do Fiel da Sorte
O Fiel da Sorte foi lançado pelo Corinthians em junho de 2023 como um benefício para os integrantes do Fiel Torcedor.
O programa prometia sorteios semanais de produtos oficiais e experiências relacionadas ao clube. Uma das principais atrações era a rabiscadinha, espécie de raspadinha digital disponível no aplicativo Universo SCCP.
A divulgação do programa nas plataformas oficiais do Corinthians foi interrompida em abril de 2024. Os pagamentos à Incentiva, entretanto, continuaram até abril de 2026.
A última autorização concedida pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Governo Federal para sorteios envolvendo a empresa venceu em setembro de 2024.
Um relatório recebido pelo Corinthians indicou que as rabiscadinhas permaneceram disponíveis até dezembro de 2025. O clube, porém, não conseguiu confirmar se todos os sorteios foram realizados ou se os prêmios foram efetivamente entregues aos associados.
O contrato, que originalmente permaneceria em vigor até 2028, foi rescindido pela atual diretoria. O Corinthians cobra uma indenização de R$ 3 milhões pelo encerramento antecipado do vínculo.
A Incentiva havia contestado a versão do clube quando o caso veio a público. A empresa afirmou que não foi comunicada formalmente sobre a rescisão unilateral e sustentou que a campanha permaneceu operacional, com entregas, até o final de maio de 2026.
MP envia caso à Comissão de Ética do Corinthians
A investigação também terá reflexos dentro do Parque São Jorge.
Cássio Conserino encaminhou os detalhes do caso à Comissão de Ética e Disciplina do Corinthians, que poderá analisar eventuais responsabilidades administrativas de dirigentes, ex-dirigentes, conselheiros ou associados.
O envio do material não representa a abertura automática de um processo disciplinar. Caberá à Comissão de Ética avaliar os documentos e decidir se existem elementos para adotar alguma providência.
Todos os e-mails expedidos pelo Ministério Público durante o procedimento deverão estabelecer um prazo máximo de dez dias úteis para resposta.
Depois do cumprimento das diligências, o PIC retornará ao promotor para uma nova análise.
Confira a nota de Duilio Monteiro Alves
Duilio Monteiro Alves, presidente do Corinthians entre 2021 e 2023 e responsável pela administração que firmou a parceria, manifestou-se por meio de nota:
“O contrato com a empresa Incentiva tinha como objetivo o incremento de novas receitas através da venda de novos planos do Fiel Torcedor, contemplando também, através da criação do plano Fiel Digital, aquele torcedor que não pode ir ao estádio, mas que vive intensamente o Corinthians.Nesse contexto, por exemplo, além dos sorteios de prêmios e experiências, foram criados conteúdos exclusivos, que eram veiculados apenas no Universo SCCP, como os bastidores dos jogos, e a gamificação através das moedas, que incentivavam a interação do torcedor com o clube.Toda campanha de incentivo que premiava os novos fiéis torcedores deveria ser obrigatoriamente aprovada previamente junto ao Ministério da Economia, com o Corinthians assinando junto à empresa cada nova campanha.A empresa nessas campanhas possuía o compromisso contratual de adquirir de forma onerosa os produtos oficiais e as experiências junto ao Corinthians, assumindo o risco de pagar por estes, mesmo que eventualmente não fosse arrecadado o montante necessário para cobrir seus custos, através da venda dos novos planos. Das novas receitas geradas com os novos planos vendidos o clube recebia o valor integral e repassava uma parte para a empresa.”
Confira a nota do Corinthians
A atual diretoria, presidida por Osmar Stabile, também se posicionou sobre o contrato:
“O Sport Club Corinthians Paulista informa que a rescisão de contrato com a Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing para Empresas Ltda ao Corinthians ocorreu este ano após o descumprimento de contrato por parte da empresa parceira.O Corinthians ainda esclarece que os pagamentos cumpridos desde junho de 2025 foram realizados respeitando os trâmites legais e contábeis do Clube.”
O InfoTimão seguirá acompanhando o Procedimento Investigatório Criminal, as diligências determinadas pelo Ministério Público e os possíveis desdobramentos administrativos dentro do Corinthians.
E você, torcedor, acredita que os órgãos internos do Corinthians precisam ampliar a fiscalização sobre os contratos firmados pelo clube? Deixe sua opinião nos comentários e acompanhe o InfoTimão para não perder nenhuma atualização.






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