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Corinthians pagou R$ 6,9 milhões pelo Fiel da Sorte e não sabe se houve sorteios

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    Redação InfoTimão
  • há 16 minutos
  • 6 min de leitura

Programa deixou de ser divulgado em abril de 2024, mas pagamentos continuaram até 2026; Ministério Público deu dez dias para clube explicar contrato


Programa de benefícios entra na mira do Ministério Público. Foto: Reprodução
Programa de benefícios entra na mira do Ministério Público. Foto: Reprodução

O Corinthians pagou R$ 6,9 milhões à empresa responsável pelo Fiel da Sorte, programa criado para oferecer sorteios, prêmios e experiências aos integrantes do Fiel Torcedor. Embora a iniciativa tenha deixado de ser divulgada em abril de 2024, os repasses continuaram até 2026 e o clube não consegue confirmar se todas as ações contratadas foram realizadas.


A informação foi revelada originalmente pelo ge, que teve acesso a planilhas e notas fiscais relacionadas a 34 pagamentos feitos à Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing Para Empresas Ltda. As prestações identificadas abrangem o período entre agosto de 2023 e abril de 2026.


Horas depois da publicação da apuração, o Ministério Público de São Paulo enviou um ofício ao Corinthians e determinou que o clube apresente explicações sobre o contrato.


Ministério Público dá dez dias para Corinthians responder


O ofício foi encaminhado nesta quinta-feira pelo promotor Cássio Roberto Conserino, que concedeu ao Corinthians um prazo de dez dias para explicar detalhadamente os fatos.


A manifestação considera tanto as informações divulgadas pela reportagem quanto uma denúncia apresentada por um associado do clube. Segundo Conserino, o caso possui conexão com outras investigações conduzidas pelo Ministério Público envolvendo as últimas administrações do Corinthians.


O envio do ofício não significa que uma nova investigação tenha sido formalmente aberta. A Promotoria ainda avaliará as informações apresentadas pelo clube para decidir quais providências serão adotadas.



Como funcionava o Fiel da Sorte


O Fiel da Sorte foi apresentado pelo Corinthians em junho de 2023 como um benefício destinado aos integrantes do programa de sócio-torcedor. A iniciativa prometia sorteios semanais de produtos oficiais e experiências relacionadas ao clube.


Uma das principais atrações era a chamada rabiscadinha, uma raspadinha digital disponibilizada no aplicativo Universo SCCP. Cada associado tinha direito a 12 tentativas mensais sem cobrança adicional.


O contrato com a Incentiva havia sido firmado em abril daquele ano, durante a presidência de Duilio Monteiro Alves. Inicialmente, o programa recebeu divulgação nas redes sociais, nos canais institucionais e durante partidas na Neo Química Arena.


As publicações, porém, foram interrompidas em abril de 2024. Mesmo sem novas ações promocionais nos canais oficiais e com dúvidas sobre a continuidade dos sorteios, o Corinthians manteve os pagamentos por mais dois anos.


Empresa recebia valor fixo por cada novo associado


De acordo com a apuração, a Incentiva recebia R$ 3,75 mensais por cada torcedor que ingressasse no Fiel Torcedor após o início da parceria e permanecesse adimplente.


O valor não variava conforme o plano escolhido. A cobrança era a mesma inclusive para integrantes da categoria mais barata do programa, atualmente comercializada por R$ 14,90 mensais.


Cabia à OneFan, responsável pelo sistema do Fiel Torcedor e pelo aplicativo Universo SCCP, informar mensalmente quantos desses associados estavam adimplentes. O número servia como base para o cálculo do repasse à Incentiva.


Com o crescimento da quantidade de sócios, os valores aumentaram mesmo sem a divulgação do Fiel da Sorte. O primeiro pagamento identificado, realizado em agosto de 2023, foi de R$ 124.488,75. O último quitado, em abril de 2026, chegou a R$ 343.522,50, quase três vezes o valor inicial.


A participação da OneFan conecta o caso às discussões do Corinthians para reestruturar a gestão do Fiel Torcedor, da bilheteria e do Universo SCCP.


Última autorização para sorteios venceu em 2024


A última autorização concedida pela Secretaria de Prêmios e Apostas, responsável pela regulamentação desse tipo de promoção, terminou em setembro de 2024.

Desde então, não foi emitido um novo certificado autorizando sorteios da Incentiva em parceria com o Corinthians.


Certificado da última campanha do Fiel da Sorte autorizada pela Secretaria de Prêmios e Apostas. Imagem: Reprodução / SPA
Certificado da última campanha do Fiel da Sorte autorizada pela Secretaria de Prêmios e Apostas. Imagem: Reprodução / SPA

Apesar da ausência de uma nova autorização, um relatório recebido pelo Corinthians aponta que as rabiscadinhas continuaram disponíveis até 19 de dezembro de 2025.


A Incentiva sustenta que a campanha permaneceu operacional e realizou entregas até o final de maio de 2026. A defesa da empresa, no entanto, não confirmou se houve sorteios durante o período sem autorização governamental e citou a possibilidade de terem ocorrido outras ações voltadas à fidelização dos associados.


Custo declarado dos prêmios chama atenção


A diferença entre os valores repassados pelo Corinthians e o custo dos prêmios previstos nas campanhas também está entre os pontos que despertam questionamentos.


Entre junho e setembro de 2024, a Incentiva se comprometeu a distribuir 65 produtos ou experiências, avaliados em um total de R$ 7.051,30. Enquanto isso, a empresa recebia do clube parcelas de centenas de milhares de reais.


A relação incluía experiências como tour pela Neo Química Arena, camisas autografadas, kits com produtos oficiais e cartões pré-pagos. No trecho do documento anexado, um tour pela Arena aparece avaliado em R$ 50, uma camisa autografada em R$ 150 e um cartão pré-pago em R$ 200.


Trecho da relação de prêmios prevista na última campanha autorizada do Fiel da Sorte. Imagem: Reprodução / SPA
Trecho da relação de prêmios prevista na última campanha autorizada do Fiel da Sorte. Imagem: Reprodução / SPA

Contrato atravessou três administrações


Os pagamentos à Incentiva passaram pelas gestões de Duilio Monteiro Alves, Augusto Melo e Osmar Stabile.


Responsável pela assinatura do contrato, Duilio afirmou que a parceria tinha como objetivo gerar novas receitas com a ampliação do Fiel Torcedor, especialmente por meio do plano Fiel Digital.


Segundo o ex-presidente, o projeto não se limitava aos sorteios. A iniciativa também envolvia conteúdos exclusivos no Universo SCCP, experiências destinadas aos associados e um sistema de gamificação com moedas digitais.


Duilio declarou ainda que cada campanha deveria receber autorização prévia do Governo Federal e ser assinada pelo Corinthians. Conforme sua versão, a Incentiva assumia os custos e riscos relacionados aos produtos e às experiências, enquanto o clube ficava com as receitas dos novos planos e repassava uma parcela à empresa.


Augusto Melo, que comandou o Corinthians entre janeiro de 2024 e maio de 2025, afirmou ao ge que não tinha conhecimento do contrato e nunca participou de tratativas sobre o Fiel da Sorte.


A atual administração informou que os pagamentos realizados desde junho de 2025 respeitaram os procedimentos legais e contábeis do clube. A diretoria presidida por Osmar Stabile também atribuiu a rescisão ao descumprimento de obrigações pela Incentiva.


Corinthians cobra indenização de R$ 3 milhões


O Corinthians solicitou em junho a rescisão do contrato, que originalmente permaneceria em vigor até 2028. O clube pretende receber R$ 3 milhões em indenização pelo encerramento antecipado do vínculo.


A diretoria ainda investiga quais serviços deixaram de ser realizados e desde quando teria ocorrido o suposto descumprimento contratual.


A Incentiva contesta a versão apresentada pelo Corinthians. A empresa afirma que recebeu uma notificação com questionamentos e encaminhou uma resposta, mas sustenta que não foi comunicada oficialmente sobre a rescisão unilateral.


Segundo a defesa da Incentiva, cabia também ao Corinthians assinar os documentos exigidos para a obtenção de novas autorizações. A empresa alega ter procurado o clube repetidas vezes sem conseguir concluir o procedimento.


As duas últimas notas fiscais emitidas pela Incentiva não foram pagas.


Empresa passou por sucessivas mudanças societárias


Fundada em agosto de 2021 por Rodrigo Gilotti, a Incentiva possui capital social de R$ 50 mil e teria o Corinthians como único cliente.


A primeira parceria com o clube surgiu por meio do Coringão da Sorte, lançado em 2022. No ano seguinte, o projeto foi incorporado ao Universo SCCP e rebatizado como Fiel da Sorte.


A Incentiva passou posteriormente por sucessivas alterações societárias. Em dezembro de 2023, a JK Comércio Internacional Ltda., empresa registrada no Espírito Santo e ligada ao comércio atacadista de alimentos, adquiriu 70% de participação.


Gilotti deixou formalmente a sociedade em maio de 2024. Quatro meses depois, a Incentiva foi vendida para João Augusto de Queiroga Vanderley. Desde essa mudança, a empresa não obteve novas autorizações para sorteios em parceria com o Corinthians.


No final de 2024, a sede também foi transferida para um escritório comercial na região de Alphaville, em Santana de Parnaíba.


Corinthians ainda busca respostas sobre os prêmios


Depois de decidir pelo rompimento, o Corinthians procurou a OneFan para tentar identificar se os prêmios haviam sido entregues aos associados contemplados.


A gestora do sistema do Fiel Torcedor informou que não possuía esse controle. O acompanhamento das entregas permanecia sob responsabilidade da própria Incentiva.


O clube avalia solicitar uma perícia judicial para dimensionar quanto pode receber em um eventual ressarcimento. Todas as referências ao Fiel da Sorte também foram retiradas do Universo SCCP e dos demais materiais institucionais.


O episódio amplia os questionamentos sobre os mecanismos internos de fiscalização e acompanhamento dos contratos do Corinthians. O clube também é alvo de uma representação encaminhada ao Ministério Público Federal sobre possíveis irregularidades na gestão financeira, caso distinto que ainda aguarda análise do órgão.


Agora, o Corinthians terá de esclarecer quais sorteios foram efetivamente realizados, quem recebeu os prêmios e quanto dos R$ 6,9 milhões poderá ser recuperado após o rompimento do contrato.


O InfoTimão seguirá acompanhando as apurações internas, a resposta ao Ministério Público e a disputa entre Corinthians e Incentiva. Novos posicionamentos das partes serão atualizados em nosso portal.


E você, torcedor, acredita que o Corinthians precisa ampliar a fiscalização sobre seus contratos? Deixe sua opinião nos comentários e acompanhe o InfoTimão para não perder nenhum desdobramento dos bastidores do clube.

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