Rosario Central distorce cronologia e relativiza denúncia de racismo de Hugo Souza
- Redação InfoTimão

- há 7 minutos
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Clube equipara provocações a ofensas raciais e insinua uso estratégico do protocolo, embora goleiro tenha denunciado ataques antes da expulsão de Allan.

O Rosario Central publicou uma nota oficial na noite desta sexta-feira (14) para acusar torcedores do Corinthians de atos “racistas, discriminatórios e provocativos”, contestar a denúncia apresentada por Hugo Souza e insinuar que o goleiro teria utilizado o protocolo antirracista para obter uma vantagem esportiva.
No mesmo documento, o clube argentino colocou no mesmo plano a exibição de pesos argentinos, uma camisa da Espanha e as ofensas raciais que Hugo afirmou ter escutado desde o aquecimento. A nota ainda apresenta uma cronologia incompatível com o que aconteceu no Estádio Gigante de Arroyito: o goleiro comunicou os ataques antes da expulsão de Allan, não depois, como escreveu o Rosario Central.
O comunicado afirma que a denúncia ocorreu quando o Corinthians já estava com dez jogadores e sofria pressão do adversário. Hugo procurou o árbitro aos 21 minutos do segundo tempo. Allan recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso somente aos 34.
Rosario Central acusa torcedores do Corinthians de racismo
Na primeira parte do comunicado, o Rosario Central afirmou que torcedores visitantes praticaram atos considerados pelo clube como racistas, discriminatórios e provocativos contra jogadores e torcedores argentinos.
A diretoria citou a exibição de notas de pesos argentinos, interpretada como uma provocação relacionada à situação econômica do país. Também mencionou uma camisa da Espanha mostrada no setor visitante. A seleção espanhola venceu a Argentina por 1 a 0 na final da Copa do Mundo de 2026, disputada em julho, com um gol de Ferran Torres na prorrogação.
“Cabe referir-se à já repetida exibição de notas da moeda nacional, o que configura uma clara ofensa e deboche ao nosso país; a isso somou-se a exibição de uma camisa espanhola, em outro ato de provocação ao nosso público”, afirmou o Rosario Central.
O clube informou possuir provas dessas condutas e prometeu entregar o material à Conmebol. Também declarou que episódios dessa natureza seriam recorrentes nos confrontos com algumas equipes brasileiras.
Qualquer conduta discriminatória praticada por torcedores do Corinthians precisa ser investigada de forma independente. Se houver identificação dos responsáveis e violação das normas da competição, as sanções correspondentes devem ser aplicadas.
Isso, entretanto, não transforma os episódios em uma resposta à denúncia de Hugo Souza. Uma provocação esportiva, uma manifestação contra um país e uma ofensa racial não são fenômenos intercambiáveis. Um caso não anula o outro, e eventuais irregularidades cometidas no setor visitante não autorizam o Rosario Central a colocar sob suspeita a palavra da vítima.
Confira a nota oficial divulgada pelo Rosario Central:
Comunicado oficial do Rosario Central. Reprodução / Rosario Central
Nota apresenta cronologia incompatível com o jogo
O trecho mais grave do comunicado aparece quando o Rosario Central questiona a denúncia feita por Hugo Souza e exige que o árbitro apresente provas “irrefutáveis” das ofensas relatadas pelo goleiro.
“Solicitaremos à Conmebol que investigue e exija do árbitro da partida as provas que respaldem, de forma irrefutável, os supostos xingamentos e atos racistas que o goleiro do Corinthians denunciou de forma unilateral durante o jogo”, diz a nota.
Na sequência, o clube afirma que Hugo teria procurado a arbitragem depois de o Corinthians ficar com dez jogadores.
“A denúncia ocorreu justamente quando sua equipe estava com um jogador a menos, após uma expulsão, e em um momento em que o Central pressionava no ataque, impulsionado pela torcida local”, prossegue o comunicado.
A afirmação não corresponde à cronologia da partida. Hugo comunicou as ofensas ao árbitro Andrés Matonte aos 21 minutos do segundo tempo, quando o Corinthians ainda tinha onze jogadores. Allan foi expulso apenas aos 34 minutos. O protocolo, portanto, foi acionado aproximadamente 13 minutos antes do cartão vermelho.
Ao construir sua acusação sobre uma ordem de acontecimentos que não existiu, o Rosario Central tenta atribuir uma conveniência esportiva à atitude de Hugo.
“A discriminação é um tema sério demais para ser utilizada como um artifício a serviço da conveniência esportiva, e estamos dispostos a denunciar aqueles que pretendam valer-se dela com esse fim”, escreveu o clube.
A seriedade do tema deveria exigir justamente o contrário: acolhimento inicial da denúncia, preservação das provas, investigação rigorosa e punição dos responsáveis. O contraditório faz parte de qualquer apuração, mas não pode começar com a insinuação pública de que um atleta negro utilizou o racismo como recurso tático.
A contradição torna-se ainda mais evidente porque o próprio Rosario Central afirma, mais adiante, que iniciou uma investigação interna. Antes de concluir essa apuração, entretanto, o clube já questiona a boa-fé de Hugo e apresenta uma versão incorreta dos acontecimentos.
Hugo relatou ataques desde o aquecimento
Após a partida, Hugo detalhou as manifestações que afirmou ter escutado no Gigante de Arroyito. O goleiro disse ter sido chamado de “macaco”, “mono” e “negro de m****” durante diferentes momentos do confronto.
“Infelizmente, toda vez que a gente vem jogar aqui é assim. É o jogo todo. Parece algo comum, mas não pode ser. A única atitude que posso tomar é comunicar ao juiz, porque infelizmente é um acontecimento que ocorre com frequência aqui”, afirmou Hugo à ESPN.
Na zona mista, o camisa 1 acrescentou que as ofensas começaram no aquecimento e foram percebidas por outras pessoas que estavam perto do gol. Segundo Hugo, jogadores do próprio Rosario Central chegaram a pedir desculpas pela conduta de parte da torcida.
O relato completo pode ser conferido na matéria do InfoTimão com as entrevistas dos jogadores depois do confronto.
Durante a partida, Andrés Matonte fez o sinal previsto na primeira etapa do protocolo antirracista. Ángel Di María dirigiu-se aos torcedores para pedir a interrupção das manifestações, enquanto o sistema de som do estádio emitiu um alerta contra o racismo.
Registros em vídeo que circulam nas redes sociais captaram ofensas vindas das arquibancadas e deverão ser considerados na investigação. O material precisa ser preservado e analisado ao lado das imagens do estádio, do relato da arbitragem e dos depoimentos das pessoas que estavam próximas ao local.
A afirmação do Rosario Central de que ainda não encontrou uma imagem com as ofensas não encerra a apuração. Insultos verbais podem ser escutados por atletas e testemunhas sem necessariamente aparecerem de forma nítida nas câmeras selecionadas pelo próprio clube.
O caso também não representa a primeira denúncia de Hugo em 2026. Em fevereiro, o goleiro foi alvo de ofensas racistas no Canindé, depois de uma partida contra a Portuguesa pelo Campeonato Paulista. Na ocasião, os responsáveis foram posteriormente identificados e punidos pelo clube mandante.
Rosario promete investigação interna
Apesar de questionar Hugo e insinuar uma finalidade esportiva na denúncia, o Rosario Central afirmou que iniciou uma investigação interna sobre possíveis atos de violência ou discriminação.
O clube prometeu ser “implacável” caso algum de seus sócios seja identificado e declarou que destina recursos ao combate de manifestações discriminatórias.
“Se no âmbito dessa revisão aparecer algum torcedor do Rosario Central envolvido em uma conduta passível de punição, o clube será implacável na aplicação das medidas correspondentes”, informou.
A promessa de investigação convive, no mesmo documento, com uma tentativa antecipada de descredibilizar o denunciante. O procedimento ainda não foi concluído, mas o comunicado sugere que Hugo poderia ter agido para interromper um momento favorável ao time argentino.
No encerramento, o Rosario Central amplia a acusação e fala em um suposto padrão de clubes que utilizariam denúncias para intimidar adversários e obter vantagens esportivas.

Corinthians cobra identificação e punição
O Corinthians repudiou as ofensas relatadas por Hugo, classificou o episódio como “revoltante” e anunciou que cobrará uma investigação capaz de identificar e punir os responsáveis.
“O Sport Club Corinthians Paulista repudia veementemente e lamenta mais um episódio de racismo no futebol. O clube cobrará uma investigação que resulte na identificação e punições apropriadas aos torcedores que cometeram tais atos”, afirmou o Timão.
A Conmebol informou que o caso está sob investigação. Caso a apuração avance, poderá ser aberto um processo para análise da Comissão Disciplinar da entidade.
Nota do InfoTimão
O InfoTimão repudia a forma como o Rosario Central tratou a denúncia apresentada por Hugo Souza.
Qualquer manifestação discriminatória praticada por torcedores do Corinthians deve ser investigada e punida. Não existe espaço para xenofobia, racismo ou qualquer outra forma de preconceito, independentemente da camisa utilizada pelo responsável.
Isso não permite que o Rosario Central utilize as provocações atribuídas ao setor visitante como contrapeso para relativizar ofensas raciais. Exibir pesos argentinos ou uma camisa da seleção que derrotou a Argentina pode ser entendido como provocação. Chamar um homem negro de “macaco” é uma agressão racial que atinge sua dignidade e humanidade.
Ainda mais inaceitável é insinuar que Hugo utilizou o protocolo antirracista para esfriar a partida. Além de não apresentar qualquer prova dessa acusação, o Rosario Central construiu sua narrativa sobre uma cronologia falsa. O goleiro procurou a arbitragem antes da expulsão de Allan.
Exigir uma investigação é legítimo. Questionar publicamente a boa-fé do jogador antes da conclusão da própria apuração e insinuar oportunismo sem evidências é irresponsável.
O posicionamento institucional adequado seria acolher o relato, preservar imagens, identificar os envolvidos e colaborar com a Conmebol. As condutas atribuídas aos torcedores visitantes poderiam ser denunciadas paralelamente, sem servir como justificativa ou instrumento para desacreditar Hugo Souza.
Racismo não é provocação de arquibancada, estratégia de jogo ou recurso narrativo em uma disputa entre clubes. É uma violência que precisa ser enfrentada com responsabilidade e punições efetivas.
O InfoTimão se solidariza com Hugo Souza, cobra uma investigação rigorosa e espera que a Conmebol não permita que mais um episódio seja encerrado apenas com comunicados e gestos protocolares.
Decisão acontecerá na Neo Química Arena
Dentro de campo, Rosario Central e Corinthians empataram por 0 a 0 no jogo de ida. O Timão terminou a partida com dez jogadores depois da expulsão de Allan e levou a definição da vaga para Itaquera. Confira a crônica completa do confronto no Gigante de Arroyito.
As equipes voltam a se enfrentar na próxima quinta-feira (20), às 21h30, na Neo Química Arena. Uma vitória por qualquer placar classifica o Corinthians para as quartas de final da Libertadores. Em caso de novo empate, a vaga será decidida nos pênaltis.
O InfoTimão continuará acompanhando a investigação, os posicionamentos dos clubes e eventuais medidas adotadas pela Conmebol.






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