Muito além do escudo: a história do Remo do Corinthians
- Redação InfoTimão

- há 2 horas
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Das primeiras remadas no Rio Tietê à presença no distintivo e aos títulos internacionais, modalidade centenária ajuda a explicar a identidade multiesportiva do Timão.

Na semana em que o Corinthians celebra 116 anos de história, olhar para o próprio escudo é também encontrar uma das modalidades que ajudaram a construir a identidade esportiva do clube. Os dois remos cruzados e a âncora que acompanham o distintivo alvinegro há quase um século não são apenas elementos decorativos: carregam uma relação histórica do Timão com as águas.
Muito antes de o futebol transformar o Corinthians em um fenômeno de alcance nacional e internacional, o clube já expandia sua atuação para diferentes esportes.
Nesse processo, o Remo tornou-se uma das modalidades mais tradicionais do Corinthians, atravessou gerações de atletas e construiu um patrimônio que reúne títulos, participações pela Seleção Brasileira e até uma influência definitiva na identidade visual alvinegra.
A trajetória começou às margens do Rio Tietê, passou pela estruturação do departamento náutico e chegou à Raia Olímpica da USP. Mais de um século depois das primeiras iniciativas ligadas ao esporte, o Corinthians segue colocando barcos na água e formando novos remadores.
Por que o Corinthians tem remos e uma âncora no escudo?
A explicação para os remos e a âncora no escudo do Corinthians está diretamente ligada ao desenvolvimento dos esportes náuticos dentro do clube.
A prática remonta aos tempos da Ponte Grande, primeira casa corinthiana, inaugurada em 1918. Naquele período, o Rio Tietê tinha importância muito diferente na vida esportiva de São Paulo. Suas margens reuniam clubes, treinamentos e regatas, enquanto modalidades aquáticas ocupavam espaço relevante no calendário da cidade.
O Corinthians chegou a solicitar uma área do terreno da Ponte Grande que permitisse acesso ao rio, com o objetivo de desenvolver uma escola de polo aquático e remo. A prática já existia no clube, embora ainda de maneira não federada.
Essa ligação com os esportes náuticos acabaria eternizada no próprio distintivo corinthiano. Em 1939, o pintor modernista Francisco Rebolo, que também havia defendido o clube como jogador na década de 1920, realizou a arte-final de uma nova versão do escudo.
No desenho, os dois remos cruzados, a âncora e a boia passaram a representar de forma definitiva a tradição náutica do Corinthians. A composição tornou-se a base do distintivo que atravessaria as décadas e, embora tenha recebido ajustes gráficos posteriores, preservou os elementos ligados ao Remo.
Assim, quando um corinthiano olha para o escudo atual, encontra ali não apenas a identidade do futebol, mas também um registro permanente da vocação multiesportiva do clube.

Do Rio Tietê à estruturação do Remo do Corinthians
Se as primeiras remadas aconteceram ainda na Ponte Grande, a consolidação competitiva ganhou força na década seguinte.
Em 1933, durante a presidência de Alfredo Schürig, o Corinthians adquiriu dez embarcações do Clube Esperia. A chegada dos barcos permitiu estruturar a participação alvinegra nas competições e marcou uma nova etapa para o departamento.
O investimento ocorreu em um momento no qual o remo ocupava posição de destaque no esporte brasileiro. Em São Paulo, as regatas mobilizavam clubes tradicionais e ajudavam a transformar o Tietê em um importante cenário esportivo da capital.
Para o Corinthians, incorporar definitivamente a modalidade significava também ampliar um projeto que já não se restringia aos gramados.
Décadas depois, quando o clube já havia se tornado uma das maiores instituições esportivas do país, os símbolos daquela escolha continuavam estampados em seu próprio distintivo.
A mudança para a Raia Olímpica da USP
A transformação de São Paulo e do próprio Rio Tietê mudou também a geografia do remo na cidade.
Um novo capítulo começou em 1972, com a inauguração da Raia Olímpica da Cidade Universitária da USP. O espaço tornou-se uma das principais referências da modalidade no estado e passou a concentrar clubes, atletas e competições.
O Corinthians estabeleceu ali seu novo polo para o desenvolvimento do Remo.
A mudança de cenário foi acompanhada pela modernização da preparação. Ao longo das décadas, o clube incorporou novas embarcações, remos e equipamentos destinados ao treinamento físico e ao acompanhamento da evolução dos atletas.
É na Raia Olímpica da USP que a modalidade mantém atualmente sua garagem e realiza boa parte da rotina de preparação. O mesmo espaço reúne atletas em diferentes estágios da carreira, dos jovens das categorias de formação aos integrantes da equipe Master.
Barco de 1939 preserva um capítulo da história alvinegra
Parte dessa trajetória sobrevive não apenas nas fotografias e registros históricos, mas também fisicamente.
No Memorial Poliesportivo do Corinthians, um barco modelo single-skiff construído em 1939 ajuda a dimensionar há quanto tempo a modalidade faz parte da vida do clube.
Utilizada por remadores corinthianos daquele período, a embarcação integra o acervo dedicado aos esportes aquáticos ao lado de troféus conquistados em competições estaduais, nacionais e internacionais.
Mais do que uma peça histórica, o barco estabelece uma ligação direta entre diferentes gerações. Enquanto uma embarcação utilizada há mais de oito décadas permanece preservada no Parque São Jorge, novos barcos continuam entrando na água diariamente com atletas vestindo o mesmo escudo.
Gabriel Campos abriu caminho para o Corinthians no Pan
A história competitiva do Remo alvinegro também ganhou personagens importantes em períodos mais recentes.
Em 2015, Gabriel Campos tornou-se o primeiro atleta do Remo do Corinthians a conquistar um Campeonato Brasileiro Sênior e garantir presença nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá.
A participação representou um marco para a modalidade dentro do clube. Pela primeira vez, um remador corinthiano chegou aos Jogos Pan-Americanos, ampliando a presença do Timão em uma competição multiesportiva continental.
Campos continuaria ligado ao alto rendimento do remo brasileiro e ajudaria a consolidar uma trajetória que passou a ser acompanhada por novas gerações de atletas formados ou desenvolvidos na estrutura alvinegra.
Corinthians conquista o mundo no Remo Master
Se a história explica por que os remos estão no escudo, os resultados recentes mostram que a modalidade está longe de viver apenas de memória.
Em 2025, o Corinthians conquistou pela segunda vez o Campeonato Mundial de Remo Master, disputado em Banyoles, na Espanha. O local carrega importância própria para o esporte: foi palco das provas de remo dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992.
A dimensão da competição evidencia o tamanho da conquista. Foram 5.360 remadores, 745 clubes e representantes de 54 países. O Corinthians contou com 64 atletas entre os brasileiros inscritos e encerrou o Mundial na liderança da classificação, com 1.019 pontos.
O desempenho internacional veio acompanhado de resultados relevantes no Brasil.
Também em 2025, o clube terminou como vice-campeão do Brasileiro de Barcos Curtos, realizado na Raia Olímpica da USP, e acumulou pódios nas categorias Júnior, Sub-23 e Sênior, tanto no masculino quanto no feminino.
A regularidade colocou as equipes competitivas corinthianas entre os principais nomes do remo nacional nos últimos anos.
Corinthians amplia domínio sul-americano em 2026
A sequência de conquistas continuou na temporada seguinte.
Em 2026, o Corinthians voltou de Assunção, no Paraguai, com os títulos feminino, masculino e geral do Campeonato Sul-Americano de Remo Master.
A campanha reforçou o protagonismo recente do clube na categoria e ampliou a coleção internacional de uma modalidade que permanece competitiva muitas décadas depois de ajudar a moldar a identidade alvinegra.
Enquanto o escudo preserva a memória dos esportes náuticos, os resultados mostram que os remos continuam associados também ao presente esportivo do Timão.
Atletas do Corinthians também representam a Seleção Brasileira
A força da modalidade pode ser medida ainda pela presença de atletas alvinegros nas equipes nacionais.
Em 2026, Luan Roth e Gustavo Guilherme conquistaram medalhas de prata pelo Brasil no Campeonato Sul-Americano Sub-23, enquanto Marina Santos ficou com o bronze.
A participação corinthiana em competições internacionais terá outro capítulo em setembro. Yanka Brito representará o Brasil nos Jogos Sul-Americanos de Santa Fé, na Argentina, mantendo o Corinthians presente no cenário continental.
É uma continuidade simbólica de uma trajetória que teve em Gabriel Campos, mais de uma década antes, um dos principais marcos internacionais da modalidade dentro do clube.
Da base ao Master: como funciona o Remo do Corinthians hoje
A renovação começa muito antes das grandes competições.
Atualmente, o Corinthians mantém atletas nas categorias Sub-15, Sub-17, Sub-19, Sub-23, Sênior e Master, formando uma estrutura que acompanha diferentes momentos da vida esportiva de um remador.
O clube também mantém uma Escola de Remo voltada à iniciação de adultos, ampliando o acesso à modalidade para pessoas que desejam aprender o esporte ou praticá-lo de maneira recreativa.
Ao longo da temporada, as equipes competitivas participam de eventos como a Copa Sul-Sudeste de Remo, os Campeonatos Brasileiros de Barcos Curtos e Barcos Longos e o Campeonato Brasileiro de Jovens Talentos. No Master, o calendário inclui disputas nacionais, sul-americanas e mundiais.
A convivência entre essas diferentes gerações acontece principalmente na Raia Olímpica da USP, onde fica a garagem utilizada pelo Corinthians.
No mesmo ambiente em que jovens começam a construir uma trajetória competitiva, atletas experientes seguem treinando para representar o clube em campeonatos internacionais.
Preservar o Remo é preservar parte da história do Corinthians
Essa continuidade ajuda a explicar por que manter a modalidade ativa possui um significado que ultrapassa os resultados esportivos.
Dorival, assessor de imprensa do Remo do Corinthians e atleta da equipe Master, destaca justamente a ligação entre o trabalho atual e a memória do clube.
“Manter o Remo ativo no Corinthians representa preservar uma tradição que faz parte da história multiesportiva do clube, presente inclusive em nosso distintivo, formando atletas e mantendo viva uma modalidade olímpica que exige disciplina, trabalho em equipe e superação, valores que dialogam diretamente com a identidade corinthiana”, explica.
O desafio agora é fazer com que essa história continue avançando sem perder a ligação com suas origens.
“Enxergamos o momento atual como de consolidação e crescimento. A base, do Sub-15 ao Sub-23, vem formando a próxima geração de atletas, e a Escola de Remo amplia o acesso à modalidade para quem quer aprender ou remar por lazer”, completa Dorival.
Dos remos no escudo às novas gerações nas águas
Poucos elementos conseguem resumir tão bem a história multiesportiva do Corinthians quanto aqueles que milhões de torcedores carregam no peito sem necessariamente conhecer toda a trajetória que existe por trás deles.
Os dois remos e a âncora contam uma história iniciada quando o Rio Tietê ainda fazia parte da rotina esportiva de São Paulo. Passaram pela criação de um departamento, pela chegada das primeiras embarcações, por mudanças de sede, transformações na cidade e sucessivas gerações de atletas.
O barco de 1939 guardado no Memorial e as embarcações que hoje cortam a Raia Olímpica da USP pertencem, de formas diferentes, à mesma história.
Entre um e outro estão campeonatos brasileiros, participações internacionais, títulos mundiais, medalhas pela Seleção e jovens que continuam chegando para aprender a remar.
Por isso, no escudo do Corinthians, os remos não representam apenas aquilo que o clube foi.
Representam uma história que continua em movimento.
O InfoTimão seguirá valorizando e contando as histórias das diferentes modalidades que ajudaram a construir os 116 anos do Sport Club Corinthians Paulista.
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